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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Poema em seta

 ÓDIO

ÓDIO

Odeio o ódio.
Odeio todos os que odeiam.
Odeio todos os que sentem e praticam o ódio.

Se calhar odeio-me a mim também. Que "ódiotice"!

Odeio gente odiosa. Odeio-os com todas as minhas forças. Odeio que se odeiem.

Odeio que se odeiem porque isso me faz odiá-los.
Odeio-os porque me obrigam a odiar também.

Odeio o ódio que odeio.
Odeio o ódio.

ÓDIO

segunda-feira, 16 de julho de 2018

ler

Quero ler páginas que me piquem. Quero que as palavras ecoem no meu pensamento durante horas, dias e não conseguir esquecê-las durante anos. Não quero literatura efémera. As letras têm de me fazer gritar, suspirar, transpirar de medo ou regozijar de alegria. Preciso de uma nova forma de pensar. Quero perspectivar o mundo com outros olhos e para isso, preciso que as páginas que leio não se contentem em me agradar. As páginas que leio têm de me odiar e de dizer algumas verdades. Só assim vale a pena ler. Só se nos fizer crescer.


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Não te oiço! Não te estou a ouvir. Quando é que te calas?


Não te oiço. Não te estou a ouvir. Quando é que te calas? Estou farto das tuas lamentações. Queres parar por um segundo? Não te estou a ouvir. Para! Quero que me oiças. Preciso que alguém me oiça. Quero ouvir a minha voz. Quando é que vais parar de falar? Cala-te. Agora não me dá jeito. Não tenho tempo. Tem de ficar para depois. Estou muito ocupado. Não te posso ouvir agora. Não te quero ouvir agora. Depois só posso para o outro dia. Agora é que não. Que aborrecido! Estás sempre a repetir as mesmas frases. Chato! Será que não vês a minha cara de preocupado? Tenho mais que fazer do que estar aqui a perder tempo contigo. A minha vida não é isto! Agora tenho de me ir embora. Não posso ficar aqui. Quero ir para outro lugar. Tenho de ir para longe. Não. Tu não podes vir comigo. Não percebeste ainda? Estou fartinho de ti. Só queres que eu te oiça e não tens tempo nenhum para me ouvir! Basta! Já chega. Não tenho paciência para aturar isto. Já é demais. Já me sinto cansado. Na verdade estou exausto e sem cabeça para pensar. O meu corpo ficou pesado. Olha, parei. Estou inerte. Agora passas por mim e nem me vês. Agora tinha tempo para te ouvir. Não queres? Já é tarde? Tens razão, vou-me deitar.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Ele é um assassino

Ele é um assassino. Um assassino da sua própria vida, e é um suicida qualificado e premeditado. Ele não quer saber de si próprio e mesmo assim considera-se superior a todos os outros. Ele vive sozinho, numa vida singular e mesmo assim consegue-se matar todos os dias de uma maneira diferente.

Quando se olha ao espelho, ele cega-se a ele próprio por odiar aquilo que vê e não conseguir ver além do que está refletido no espelho.

Ele afoga-se a ele próprio quando durante o banho não gosta de ver ou tocar no seu próprio corpo.

Ele sufoca-se a ele próprio quando passa os dias fechado em casa sem querer ver, ouvir ou falar com alguém.

Ele imola-se quando não exterioriza a raiva que sente e o ódio o corrói por dentro.

Ele é um suicida qualificado e premeditado e foi condenado a pena perpétua por negligência de afetos.
 
 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Escrevo porque sei que o que escrevo ninguém consegue ler

Escrevo porque sei que o que escrevo ninguém consegue ler. Aquilo que penso e aquilo escrevo é diferente daquilo que é lido e que é pensado por outrem. Até mesmo eu, depois de escrever o que penso não me consigo lembrar do que estava a pensar quando escrevi. A pessoa que escreve o texto nunca é a mesma que o lê. Muda o tempo, muda o espaço, muda o leitor e, por fim, muda o texto. Às vezes não me reconheço nas minhas próprias letras.

Isto deu, dá e sempre dará azo a novos amores e a novos ódios. Pensamos nós que quem gosta daquilo que escrevemos é porque gosta da forma como pensamos e está em concordância com os nossos sentimentos. Porém, na verdade, quem gosta daquilo que escrevemos, gosta apenas da forma como interpreta as nossas palavras e as consegue encaixar na sua vida. Quem diz que gosta daquilo que lê é porque encontra naquelas letras o seu nome. Da mesma forma, quem não encontra empatia com as palavras que lê pode-lhes mesmo ganhar ódio. E esse ódio gera guerra. A guerra é a ferida que é causada pela leitura de um texto que não se gosta e é partilhada com outros que têm as mesmas feridas.

Um mesmo texto tem tantas interpretações quanto o número de pessoas que o lê. E, sendo assim, há muitos mais textos para serem lidos do que aqueles que já estão escritos. Por um lado, se há muitos outros textos que eu gostaria de ler, por outro lado, há muitos outros textos que eu preferia não descodificar. Então porque ensinamos nós os outros a ler e a escrever? Será apenas uma questão prática, de acesso ao registo escrito? Serão o ler e o escrever direitos de um cidadão? E deveres? Um leitor e um escritor têm direitos mas também têm deveres para com um texto. Um leitor tem o direito de interpretar um texto das formas que quiser. Um escritor tem o direito de escrever um texto sob as formas que quiser. Todavia, um leitor tem o dever de ler na íntegra um texto antes de saltar linhas ou esboçar entrelinhas. E um escritor tem o dever de perante um texto que escreve fazer justiça aos seus pensamentos usando as palavras certas em cada momento. Além disso, o escritor não se pode esquecer que os seus pensamentos ficarão ao acesso de todos. Pelo contrário, o leitor tem a liberdade de poder guardar para si as suas interpretações e apenas as revela se o entender. Não pretendo de alguma forma desprezar o ser-leitor, caso contrário estaria a desprezar-me a mim própria. Eu sou a eterna leitora do meu ser-escritor. Quero apenas distinguir estes dois atos para tudo ficar bem arrumado na minha cabeça. Tu que estás a escrever não és quem estás a ler.

Sempre escrevi, escrevo e continuarei a escrever. Ao fazê-lo, uso o papel e o lápis para desenhar o que penso. Uso letras em vez de traços como os pintores. Através das letras eu mostro as cores daquilo que penso. Uso as palavras paixão, sangue e arrebatador para colorir o amor de vermelho. Uso as palavras sombra, frio e mistério para colorir a noite de preto. Uso letras em vez de colheres-de-pau como os cozinheiros. Através das letras eu mostro os cheiros daquilo que penso. Uso as palavras rosa, brisa e silvestre para perfumar um jardim. Uso as palavras quente, textura e suave para degustar um bom vinho.

Não há dúvida que as palavras são o meu veículo de condução preferido para visitar os meus pensamentos e por lá ficar a passear. Com as palavras em vagueio pelas maiores avenidas das mais modernas cidades e pelas escadinhas de xisto das ruelas escondidas das aldeias mais longínquas. Às vezes vou a pedalar devagarinho a apreciar o sol que roça no meu rosto e outras vezes escrevo de forma pouco cuidada e desenfreada como se estivesse a mudar de metro muitas vezes de seguida. Será que algum dia chegarei ao fim da viagem? Onde para o meu destino?

Um texto não é mais do que uma viagem. Quando se viaja sente-se tudo de uma forma que nunca mais se sentirá igual. Muda o tempo, muda o espaço, muda a companhia que vai ao nosso lado, muda o viajante que há em nós e, por fim, muda o texto. É por isso que às vezes não me reconheço nas minhas próprias letras.