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sexta-feira, 5 de abril de 2019

Lês erradamente



Se procuras um livro de cabeceira que te ajude a adormecer, lês pelas razões erradas.
Se procuras um livro que te caiba na mala e que te dê prazer, lês pelas razões erradas.

Não quero livros para adormecer.
Quero livros para acordar.


Não quero livros que encaixem comodamente na minha vida.
Quero livros que me empurrem do cimo das escadas e me ponham numa cadeira de rodas.

Não quero livros para saborear com uma taça de chá.
Quero livros que me deixem inquieta.
Quero esses livros já.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

ler

Quero ler páginas que me piquem. Quero que as palavras ecoem no meu pensamento durante horas, dias e não conseguir esquecê-las durante anos. Não quero literatura efémera. As letras têm de me fazer gritar, suspirar, transpirar de medo ou regozijar de alegria. Preciso de uma nova forma de pensar. Quero perspectivar o mundo com outros olhos e para isso, preciso que as páginas que leio não se contentem em me agradar. As páginas que leio têm de me odiar e de dizer algumas verdades. Só assim vale a pena ler. Só se nos fizer crescer.


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Mas afinal o que são Histórias Ainda Por Abotoar?


São histórias por abotoar estas que vos escrevo. Não são mais do que singelos rascunhos, por vezes até pobres no seu significado mas que escrevo com alma sobre os mais nobres tecidos. São acima de tudo histórias sobre tudo e sobre nada.

Às vezes, nem se poderão chamar efetivamente de histórias mas por que acabam sempre por ter um bocadinho de mim, farão, pelo menos e por certo, parte da minha história. São histórias por abotoar e acabam por ser retalhos dos meus pensamentos que coso com as palavras que tenho à minha disposição.

Não me importo se as cores das linhas condizem umas com as outras ou se por vezes se cruzam e fica um nó entre as palavras. Também pouco me interessa se sigo bem os moldes ou se os padrões não combinam de todo. São histórias por abotoar e são pedaços de mim e da forma como vislumbro a vida, são cortes e recortes do meu dia-a-dia e por mais sóbrios ou mais loucos que possam ser, eu visto-os, porque são meus. Visto-os e desfilo-os pela rua. De alguma forma orgulho-me da estilista que vejo crescer em mim.

Porém, eu sei que estas histórias perdem por não lhes dedicar a atenção devida e, na maioria das vezes, não lhes aprimorar o corte ou fazer uma bainha mas por enquanto é assim que elas me fazem sentido. Pouco me importa se quem as lê agora dá pela falta de uma dobra ou até mesmo de um botão… No fim de contas, elas são ainda histórias por abotoar, e cumprem bem a sua função. Tenciono continuar a escrever para mim, para todos e para ninguém.

Prometo que qualquer dia aprendo a costurar.

 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Escrevo porque sei que o que escrevo ninguém consegue ler

Escrevo porque sei que o que escrevo ninguém consegue ler. Aquilo que penso e aquilo escrevo é diferente daquilo que é lido e que é pensado por outrem. Até mesmo eu, depois de escrever o que penso não me consigo lembrar do que estava a pensar quando escrevi. A pessoa que escreve o texto nunca é a mesma que o lê. Muda o tempo, muda o espaço, muda o leitor e, por fim, muda o texto. Às vezes não me reconheço nas minhas próprias letras.

Isto deu, dá e sempre dará azo a novos amores e a novos ódios. Pensamos nós que quem gosta daquilo que escrevemos é porque gosta da forma como pensamos e está em concordância com os nossos sentimentos. Porém, na verdade, quem gosta daquilo que escrevemos, gosta apenas da forma como interpreta as nossas palavras e as consegue encaixar na sua vida. Quem diz que gosta daquilo que lê é porque encontra naquelas letras o seu nome. Da mesma forma, quem não encontra empatia com as palavras que lê pode-lhes mesmo ganhar ódio. E esse ódio gera guerra. A guerra é a ferida que é causada pela leitura de um texto que não se gosta e é partilhada com outros que têm as mesmas feridas.

Um mesmo texto tem tantas interpretações quanto o número de pessoas que o lê. E, sendo assim, há muitos mais textos para serem lidos do que aqueles que já estão escritos. Por um lado, se há muitos outros textos que eu gostaria de ler, por outro lado, há muitos outros textos que eu preferia não descodificar. Então porque ensinamos nós os outros a ler e a escrever? Será apenas uma questão prática, de acesso ao registo escrito? Serão o ler e o escrever direitos de um cidadão? E deveres? Um leitor e um escritor têm direitos mas também têm deveres para com um texto. Um leitor tem o direito de interpretar um texto das formas que quiser. Um escritor tem o direito de escrever um texto sob as formas que quiser. Todavia, um leitor tem o dever de ler na íntegra um texto antes de saltar linhas ou esboçar entrelinhas. E um escritor tem o dever de perante um texto que escreve fazer justiça aos seus pensamentos usando as palavras certas em cada momento. Além disso, o escritor não se pode esquecer que os seus pensamentos ficarão ao acesso de todos. Pelo contrário, o leitor tem a liberdade de poder guardar para si as suas interpretações e apenas as revela se o entender. Não pretendo de alguma forma desprezar o ser-leitor, caso contrário estaria a desprezar-me a mim própria. Eu sou a eterna leitora do meu ser-escritor. Quero apenas distinguir estes dois atos para tudo ficar bem arrumado na minha cabeça. Tu que estás a escrever não és quem estás a ler.

Sempre escrevi, escrevo e continuarei a escrever. Ao fazê-lo, uso o papel e o lápis para desenhar o que penso. Uso letras em vez de traços como os pintores. Através das letras eu mostro as cores daquilo que penso. Uso as palavras paixão, sangue e arrebatador para colorir o amor de vermelho. Uso as palavras sombra, frio e mistério para colorir a noite de preto. Uso letras em vez de colheres-de-pau como os cozinheiros. Através das letras eu mostro os cheiros daquilo que penso. Uso as palavras rosa, brisa e silvestre para perfumar um jardim. Uso as palavras quente, textura e suave para degustar um bom vinho.

Não há dúvida que as palavras são o meu veículo de condução preferido para visitar os meus pensamentos e por lá ficar a passear. Com as palavras em vagueio pelas maiores avenidas das mais modernas cidades e pelas escadinhas de xisto das ruelas escondidas das aldeias mais longínquas. Às vezes vou a pedalar devagarinho a apreciar o sol que roça no meu rosto e outras vezes escrevo de forma pouco cuidada e desenfreada como se estivesse a mudar de metro muitas vezes de seguida. Será que algum dia chegarei ao fim da viagem? Onde para o meu destino?

Um texto não é mais do que uma viagem. Quando se viaja sente-se tudo de uma forma que nunca mais se sentirá igual. Muda o tempo, muda o espaço, muda a companhia que vai ao nosso lado, muda o viajante que há em nós e, por fim, muda o texto. É por isso que às vezes não me reconheço nas minhas próprias letras.