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sábado, 20 de dezembro de 2014

bolhas



Todos nós vivemos dentro de uma bolha. Todos nós nos tentamos proteger uns aos outros de saltar para fora da bolha. Evitamos a todo o custo não olhar para fora da nossa bolha. Temos medo de ver o que para lá se passa. Porque ouvimos dizer e quem já saltou para fora da bolha já nos contou o que para lá há. Sabemos que é tão mau que preferimos continuar a olhar e a viver dentro da bolha que construímos para nós próprios. Se não vemos não dói. Se não vemos não sentimos pena. Se não vemos é porque não existe. O pior é que às vezes a bolha rebenta e as pessoas à nossa volta, tal como nós, não vão querer nunca sair das suas bolhas.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

dias

Nascemos sem querer. Não decidimos quando ou onde. Morremos sem querer. Não decidimos quando ou onde. Todos os outros dias, entre o dia da nossa chegada e o da nossa partida, somos nós que decidimos. Todos os dias podemos decidir quando fazemos o quê, para onde vamos, e com quem queremos estar. Não devemos, portanto, limitar a nossa vida em função de apenas dois dos seus dias.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

decidir

Não quero decidir. Não me quero sentir culpada pelo destino que a minha vida pode tomar. Não quero ser eu a ter o peso na consciência sobre o novo rumo que a minha vida tomar. Não me quero sentir culpada se a minha vida começar a correr mal. Alguém que decida por mim. A moeda ao ar também não me serve. Não quero decidir. Prefiro sentir-me ilusoriamente impotente. Não quero ser eu a decidir algo tão importante. E, no entanto, tenho de viver com o peso dessa minha decisão.

Estou à espera...

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

orgulho


O Orgulho nunca o deixou ser ninguém. Falava-lhe sempre baixinho ao ouvido e dizia-lhe para se achar melhor do que todos os outros. Mesmo no momento em que mais precisou da ajuda de alguém, o Orgulho disse-lhe para não descer tão baixo e ignorar as mãos que o queriam acudir. “Não peças nunca desculpas a ninguém!” lembrava-lhe vezes sem conta o Orgulho com medo que ele deixasse de ser quem era e que perdesse assim a sua dignidade. Em todas as situações pedia-lhe que não desse o braço a torcer, com pena de passar por perdedor. Ele lá ia ouvindo os conselhos do Orgulho e a sua vida até que não lhe corria mal… Até disso se podia orgulhar! Vivia sozinho, com aquele amigo de sempre; não tinha família, não sabia o que era o amor, não tinha trabalho e vivia para o ar. Era um Zé-ninguém-com-Orgulho. Chegou porém um dia em que de tão orgulhoso que se tinha tornado achou não precisar mais daquele seu único e fiel companheiro. Foi inchado de orgulho que lhe deu um pontapé daqueles bem puxados atrás. Claro que o Orgulho não se ficou por ali e acabou por lhe dar troco. De tão orgulhosos que ambos eram, ninguém quis sair perdedor e dar por terminada a zanga. E por isso acabaram por morrer, não de pancada mas do Síndrome de Orgulho Estupidamente Agudo.


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

todos


Todos nós vivemos de uma forma diferente. Todos nós vemos a vida de uma forma diferente e todos nós acabamos por encontrar uma justificação para estarmos hoje aqui, a viver esta vida que algo ou alguém nos decidiu ofertar.

Todos, menos eu.

Eu continuo sem perceber porque é que tudo isto existe e não percebo como é que há pessoas que levam uma vida inteira - nascem e morrem - sem nunca se perguntarem: o que é isto?

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

vazio


Esvazia-te. Sente-te vazio. Inunda-te de incertezas. Volta a ser uma tábua rasa se algum dia sequer o foste. Livra-te de tudo o que aprendeste. Volta a olhar o mundo sem preconceitos. Respira como se fosse a primeira vez. Alegra-te com o que de mais simples a vida tem. Não procures saber. Não queiras saber. Tem raiva de quem sabe. Não queiras saber de professores, de livros ou filosofias. Eles infetam-te. Eles mudam-te. Eles querem que sejas quem tu não és. Sacode-te. Deixa sair os teus pensamentos. Deixa as tuas emoções saírem de forma natural. Chora se tiveres que chorar. Ri se tiveres que rir. Esconde-te do mundo se quiseres. Expulsa de ti qualquer tipo de opinião. Exorciza qualquer religião. Não acredites em nada. Não oiças o que te dizem. Não creias no que os teus olhos veem. Não te deixes levar por perfumes. Repele-te contra tudo o que te queira tocar. Sê livre de sensações e de emoções. Repudia sentimentos e anula conhecimentos. Não queiras ir mais longe. Fica onde estás e esvazia-te. Esvazia-te apenas e nada te poderá magoar. Sê vazio, mas feliz.


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Não te oiço! Não te estou a ouvir. Quando é que te calas?


Não te oiço. Não te estou a ouvir. Quando é que te calas? Estou farto das tuas lamentações. Queres parar por um segundo? Não te estou a ouvir. Para! Quero que me oiças. Preciso que alguém me oiça. Quero ouvir a minha voz. Quando é que vais parar de falar? Cala-te. Agora não me dá jeito. Não tenho tempo. Tem de ficar para depois. Estou muito ocupado. Não te posso ouvir agora. Não te quero ouvir agora. Depois só posso para o outro dia. Agora é que não. Que aborrecido! Estás sempre a repetir as mesmas frases. Chato! Será que não vês a minha cara de preocupado? Tenho mais que fazer do que estar aqui a perder tempo contigo. A minha vida não é isto! Agora tenho de me ir embora. Não posso ficar aqui. Quero ir para outro lugar. Tenho de ir para longe. Não. Tu não podes vir comigo. Não percebeste ainda? Estou fartinho de ti. Só queres que eu te oiça e não tens tempo nenhum para me ouvir! Basta! Já chega. Não tenho paciência para aturar isto. Já é demais. Já me sinto cansado. Na verdade estou exausto e sem cabeça para pensar. O meu corpo ficou pesado. Olha, parei. Estou inerte. Agora passas por mim e nem me vês. Agora tinha tempo para te ouvir. Não queres? Já é tarde? Tens razão, vou-me deitar.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Palavras caras não as compro eu

Há pessoas que perdem demasiado tempo à procura de palavras caras para se expressarem, para dizerem aos outros aquilo que sentem. Dizem que o tempo é dinheiro e eu acho que essas pessoas além de perderem tempo, perdem outras valiosíssimas coisas. As palavras mais caras nem sempre são aquelas que mais rápido chegam ao coração do outro ou que fazem o coração do outro ficar mais sensibilizado. Na maioria das vezes são mesmo as palavras mais singelas e mais corriqueiras que, sem o outro estar à espera, fazem abanar o mundo e mudar toda uma vida. Tentar usar as palavras certas e as mais caras não me parece que seja o melhor caminho. Usar palavras mais simples e com menos floreados também me parece mais sincero e verdadeiro. Porém, temos de concordar que às vezes nem sequer é preciso utilizar palavras porque é esse mesmo silêncio entre elas que nos diz quem nos ama.

 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

E quem não salta?


A Vida é um conjunto de desafios. Não há quem não os tenha. Não há quem os consiga ludibriar.

A Vida vai-nos pondo à prova e vai ela própria nos desafiando. “Tenta lá agora saltar mais alto…” passa a Vida nos dizendo, sempre que nos encontramos já estáveis e acomodados.

E à primeira vista fazemos sempre uma careta feia (mais feia do que aquela que tínhamos feito ao último desafio). Mas depois, respiramos fundo e lembramo-nos de que não é o primeiro desafio que conseguimos transpor, por isso ganhamos força de vontade para vencer e ali estamos nós. Olhamos lá para baixo e pensamos “Que salto enorme que eu dei… Já estou tão cá no cimo!”. E ficamos orgulhosos de nós próprios.

A Vida lá no seu íntimo também se acaba por orgulhar de nós e, enquanto isso, começa logo a magicar qual o próximo desafio que nos irá servir de bandeja.

“Já chega de saltos…” pensamos nós para com os nossos botões. Mas claro que a Vida não faz caso e logo quando nós nos encontramos a andar vagarosamente ela chega e faz-nos pular novamente. “Upa!” grita ela puxando por nós.

Nós lá vamos seguindo o que a Vida nos incita a fazer. Ora damos um saltinho aqui, ora damos um pulo gigante acolá… Às vezes acontece saltarmos e o desafio ser tão grande que quando caímos ao chão nos magoamos mas, a Vida lá reconhece o seu erro e trata de nos arranjar uns trampolins. Nós sabemos que podemos contar sempre com esses trampolins. Às vezes, somos nós mesmos os trampolins de nós próprios; outras vezes, precisamos dos trampolins vizinhos para voltarmos ao patamar onde estávamos antes. Eu, pessoalmente, gosto de chamar os meus trampolins pelo seu verdadeiro nome: Amigos. Acho que lhes devo esse respeito.

Espero que a Vida esteja orgulhosa de mim. Tenho saltado todas as vezes que ela mo pediu para fazer. Às vezes lá dou um salto mais pequenino quando devia ter quase tocado nas nuvens. Outras vezes, ela espera de mim um pequeno salto e eu consigo deixá-la boquiaberta com a altura a que consegui chegar. Às vezes também caio mas, graças a Deus que tenho os meus Amigos, os trampolins. Afinal, o importante é nunca perder o jeito para saltar.
 
 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Posso?


-Mãe, se não posso ser criança para sempre, posso ser escritor?
 
...
 
 
-Pai, se não tenho tempo para ser mais do que uma coisa nesta vida, posso ser escritor?


 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Ele é um assassino

Ele é um assassino. Um assassino da sua própria vida, e é um suicida qualificado e premeditado. Ele não quer saber de si próprio e mesmo assim considera-se superior a todos os outros. Ele vive sozinho, numa vida singular e mesmo assim consegue-se matar todos os dias de uma maneira diferente.

Quando se olha ao espelho, ele cega-se a ele próprio por odiar aquilo que vê e não conseguir ver além do que está refletido no espelho.

Ele afoga-se a ele próprio quando durante o banho não gosta de ver ou tocar no seu próprio corpo.

Ele sufoca-se a ele próprio quando passa os dias fechado em casa sem querer ver, ouvir ou falar com alguém.

Ele imola-se quando não exterioriza a raiva que sente e o ódio o corrói por dentro.

Ele é um suicida qualificado e premeditado e foi condenado a pena perpétua por negligência de afetos.
 
 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Julgar? Julga-te a ti

Não era mais do que uma tarde cinzenta e chuvosa de outono e, no entanto, eu tornei-a naquela tarde cinzenta e chuvosa de outono.

Quem se cruzava connosco no jardim não percebia o que se estava a passar. Lá continuavam resguardados debaixo das sombrinhas, mas os seus rostos viravam-se para trás depois de passarmos por eles. As pessoas achavam que se perdessem mais uns segundos das suas vidas a observarem-nos iriam perceber o que se tinha passado.

O mesmo acontecia no comboio. Olhavam para nós como se fôssemos pessoas com um comportamento muito estranho, pouco enquadrado naquela tarde cinzenta e chuvosa de outono. Alguns atreviam-se a olhar de forma direta para nós, fazendo-nos sentir perturbados e a mais. Mas, a maioria, procurava ver-nos refletidos no vidro das janelas para poder tirar conclusões à vontade e julgar-nos mais facilmente.

É tão fácil julgar o que não se conhece. Muitos pensaram com certeza que eu era uma louca acabada de sair do manicómio e que ele era meu irmão e ralhava comigo sem razão. Outros devem ter ficado a pensar que eu era uma pobre mendiga, a quem a sorte nunca tinha batido à porta e que ele era um voluntário a tentar levar-me para um sítio seguro. Muitas outras coisas lhes passaram, por certo, pela ideia.

O que eles não conseguiam perceber era a minha cara de felicidade. Quase parecia estar a gozar com ele, rindo-me dos disparates que ele ia dizendo. Estávamos os dois todos encharcados e eu, a cada vez que espirrava, sentia o meu sorriso crescer ainda mais. E ele continuava a falar comigo, a dizer que não podia ser assim.

O que aquelas pessoas também não sabiam, era que eu dantes era igual a elas e que me aborrecia com uma tarde cinzenta e chuvosa de outono, até ter chegado aquela tarde cinzenta e chuvosa de outono. Aquela em que descobri que este poderia ser o último dia da minha vida e, por isso, não valeria a pena esperar pela primavera para me sentir viva.
 
 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Textos com vida que convidam outros textos


Um dia decidi escrever um conto. E esse conto dizia assim:

Era uma vez uma pessoa que queria escrever um conto. E esse conto dizia assim:

Era um dia lindo de primavera e tu querias escrever um conto. E esse conto começava assim:

Há muito, muito tempo alguém começou a escrever um conto. E esse conto era assim:

Desde há muitos, muitos anos que eu queria escrever um conto. E esse conto, por si só, assim se escreveu a si.

 

Não tenho dúvida que os textos têm vida própria.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Sombra

Ela vive num canto de um beco sem saída. As suas formas são bem delineadas mas apenas visíveis à luz do candeeiro da rua. E é à noite que ela mais gosta de estar. Ela é escura, nem preta nem negra. Simplesmente, escura. Ninguém dá pela sua presença. Nem ela muitas vezes dá pela sua própria existência. Ela foge quase de tudo o que a rodeia e anda sempre escondida de todos.

Ela é fria mesmo no dia mais quente do ano. No inverno é gélida ao ponto de fazer arrepiar o ser mais corajoso. Muitos têm medo dela. E muitos têm medo dela mesmo sem nunca a ter conhecido. Ela não acha isso justo. Dizerem que ela é apenas um pedaço de escuridão, um sítio que nem o sol quer iluminar. Dizerem que ela quer mal às crianças e que as assusta mesmo nos seus quartos durante a noite. Afirmarem até, sem nunca a terem visto, nem sequer dirigido a palavra, que ela ajuda o Bicho-papão a assustar os pequenos que não comeram a sopa toda ao jantar. Uma panóplia de mentiras, umas atrás das outras, que ela ouve no beco onde vive.

Às vezes, as crianças do bairro lá lhe atiram uma bola mas como ela não consegue chutar de volta, acaba por ir sempre lá sozinho, um dos rapazes. Mal agarra a bola desata numa correria desenfreada como que a fugir dela. A Sombra fica triste. Gostava de ter mais amigos. Os únicos com quem ela pode contar são os gatos. Os gatos pretos, claro. À noite, depois de os gatos terem vasculhado todos os caixotes do lixo de todos os restaurantes da cidade vão ao beco e ficam deitados num pequeno muro que lá há. Passam a noite a conversar, a Sombra e os gatos pretos. Na verdade as suas conversas acabam sempre por ir parar aos mesmos assuntos. Falam sobre a noite que parece sempre tão curta e sobre o dia que demora imenso a passar. A Sombra lamenta-se sobre a falta de atenção que lhe dão, e as injúrias que sobre ela fazem, enquanto os gatos pretos falam inconformados sobre a conotação de azar que lhes atribuíram desde há muitos anos. Eles eram os melhores amigos das bruxas. E depois? Explicam à Sombra que enquanto ela está ali quieta e sossegada durante o dia, eles passam o dia todo a ver as pessoas fugirem deles a sete pés ou a irem esbaforidas à procura de algo vermelho para beijar. As pessoas pensam que isto funciona como antídoto à má sorte por se terem atravessado à sua frente. São longas as noites que passam a conversar. Mas, de manhã, os gatos lá vão às suas vidas e a Sombra ali fica novamente sozinha.

Vai-se divertindo debaixo da árvore do bairro ou saltando por entre as sombras dos carros, aproveitando a boleia de um cão que passa por perto. Num dia em que não esteja tão triste até se diverte a fazer equilibrismo nas sombras dos estendais, saltando ao pé-coxinho por entre meias, camisas e cuecas. Outras vezes entretem-se a trepar pela sombra do candeeiro de rua que se reflete no muro. Estica-se toda como se se estivesse a espreguiçar e dá uma espreitadela aos quintais que estão por trás do muro. Nunca se atreveu a sair dali. Apesar de tudo, é ali que gosta de estar.

Outras sombras há, que vivem na praia e nas esplanadas das cidades grandes. Claro que também são felizes nesses lugares mas nunca ficam tempo suficiente para se aperceberem da sorte que têm. Mal as pessoas se fartam e querem ir para casa, fecham o chapéu-de-sol e já está. Começam as nuvens a aproximar-se e o vento a soprar e lá vai alguém guardar os chapéus-de-sol na despensa, deixando as sombras enclausuradas num cubículo até ao próximo dia soalheiro.

Ela, apesar de tudo, prefere viver ali naquele beco, sem grande beleza e sem grande exaltação. Chega-lhe a certeza de que todos os dias alguém a visita, ou para ir buscar uma bola, ou para conversar um pouco sobre os azares desta vida.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A Ilha-dos-óculos-perdidos

Num oceano longínquo (daqueles que nem com binóculos se avistam) existe uma ilha diferente das outras. Não é uma ilha com palmeiras e praias de areia branca e água transparente. Não, senhor. É uma ilha com óculos de todos os tamanhos, formas e cores. Com óculos de sol, óculos de ver ao longe e de ver ao perto, óculos para a vista cansada, óculos de natação, óculos de ski e outros que tais. Há óculos a perder de vista! Mas, ninguém habita nesta ilha. A verdade é que as pessoas nem sabem que ela existe. Quando trocam de óculos, deitam-nos fora e eles são enviados para esta ilha em nenhures. E os óculos passam a vida à espera que algum barco atraque por engano na ilha e os descubra para voltarem a sentir-se úteis. Todos eles já tiveram alguém que os usasse e que cuidasse deles, que os limpasse com um paninho e os guardasse numa caixinha. E nenhum deles se esquece daquilo que viu e daquilo que partilhou com quem os apoiava na parte de trás das orelhas. Mesmo quando eles não eram usados, as pessoas colocavam-nos no topo da cabeça e eles eram felizes só a olhar as nuvens e as estrelas. Mas, maior cego é aquele que não quer ver e os óculos na sua ingenuidade, nunca se perguntaram sobre o destino que teriam tido os óculos que lhes antecederam e que destino teriam eles próprios quando já não servissem.

Acontece que um dia, um navio passou muito perto da ilha e um tripulante desceu num bote para a ir conhecer. Quando chegou, o seu espanto foi tal que logo chamou os amigos para irem ver também. Era ver para crer! O grupo de homens entusiasmou-se com a descoberta. Ficaram com os olhos em bico e nenhum deles via onde punha os pés, só com a ânsia de pegar nos óculos que mais brilhavam, naqueles que mais lhes enchiam a vista. Ainda para mais, os óculos estavam mesmo ali a jeito. Era só pegar e levar. E podia levar-se todos os que coubessem numa mão cheia, sem dar parecer a ninguém. E depois, como a cavalo dado não se olha ao dente, não interessava de que tipo de óculos se tratava. Cada par de óculos que os homens pegavam parecia ainda mais bonito que o anterior e era mal-empregado continuarem ali ao abandono. Os homens levaram tantos quanto puderam, nas mãos, na cabeça, ao pescoço, presos à roupa, enfim. E voltaram para o navio, contando a novidade aos outros passageiros.

Ainda chegaram a contar em suas casas, aos amigos e à família sobre a ilha dos óculos perdidos mas ninguém os levou muito a sério. Eles começavam a contar a história dizendo “Se tu visses o que eu vi…” e os ouvintes acabavam dizendo “Só a olhos vistos, porque contado ninguém acredita!”. De que eu tivesse conhecimento, nunca mais ninguém voltou à ilha dos óculos perdidos. Conta-se que ainda hoje lá estão à espera de outros homens que os encontrem.

Mas, depois daquele dia, alguns óculos acabaram mesmo por se partir, ora numa haste, ora na outra, ora nas lentes, ora na armação ora no… coração. Sim. Os óculos também têm coração. Não sabias? Se olhares com atenção para os óculos de alguém encontrarás o seu coração. Às vezes consegues vê-lo sem esforço, logo quando a pessoa sorri e os óculos se elevam um bocadinho acompanhando as bochechas. Outras vezes, é mais difícil e tens de te concentrar e estar atento mas ele lá aparece, ora na íris ora num reflexo da lente. Todos os óculos daquela ilha têm ainda um coração à espera de ser descoberto. Por isso, os óculos precisam das pessoas para lhes dar vida. É através delas que os óculos se sentem estimados e, principalmente, amados.

Naquele dia, alguns tiveram sorte. Voltaram a ter alguém a quem acompanhar, com quem partilhar momentos e, principalmente a quem mostrar o mundo com outros olhos. Sim, às vezes as pessoas estão tão presas à sua própria realidade que não conseguem ver além do que lhes é permitido. São os tão comummente chamados cegos-visuais. Aqueles que só não veem porque não querem e não por não o conseguirem fazer. É curioso que, por vezes, é mesmo o que está mais longe da vista que está ao mesmo tempo mais perto do coração.

Assim, não foram só os óculos que naquele dia ganharam vida. Cada pessoa que usou um dos óculos da Ilha-dos-óculos-perdidos passou a ver a vida de outra forma. Depois de terem sido salvos, tinha chegado a altura de serem eles a salvar os Homens.