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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

insatisfação


Porque é que eu rasgo tanto do que escrevo? É tão fácil discordar de mim própria. Às vezes estou a escrever e já pressinto que no futuro não vou gostar de ler o que escrevi. É que às vezes usamos palavras demasiado duras ou demasiado patetas. Palavras que só naquele momento faziam sentido. E naquele momento sentimo-nos bem porque aquelas palavras tiveram a sua função, mas depois já não.

Hoje sim, amanhã não.


Será que somos mesmo livres?


Dizes que és livre mas não sabes. Não sabes que só és livre dentro da tua liberdade. Dizes que podes, fazes e aconteces, não só hoje mas desde sempre. Esqueceste que para hoje poderes, fazeres e aconteceres houve muitos outros antes que não podiam mas faziam e aconteciam. Já houve quem por ti lutou. Por ti criança, por ti homem, por ti mulher, por ti cidadão do mundo, por ti um dia que serás idoso. E não te esqueças que és livre mas só dentro da tua liberdade. O que podes, fazes e aconteces num lugar não quer dizer que noutro também assim o seja. Esqueceste que houve um tempo em que a liberdade não te iria pertencer, por seres tu e por seres como és. Mas lembra-te que hoje tu só és livre dentro da tua liberdade. E o que é ser livre para ti não é o mesmo que para os outros. Podes estar enjaulado e sentir-te livre e estares cá fora e não poderes dizer que o és. Outros há que ainda não o podem dizer. Outros há que a sua liberdade não os deixa sequer ser livres. E os outros há que mesmo sem liberdade são livres. Outros há que são livres sem o saberem e outros há que têm a certeza que são livres mas não são, só o são dentro da sua própria liberdade. Dizes que és livre mas não passas de um pássaro enjaulado à tua liberdade. A tua liberdade é só tua e ninguém tem uma liberdade igual à de ninguém. A tua liberdade são as tuas crenças, os teus valores, os teus objetivos, a tua família, a tua sociedade, o teu mundo e a tua consciência. Ainda achas que és livre? És livre para pensar que sim.


 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Mas afinal o que são Histórias Ainda Por Abotoar?


São histórias por abotoar estas que vos escrevo. Não são mais do que singelos rascunhos, por vezes até pobres no seu significado mas que escrevo com alma sobre os mais nobres tecidos. São acima de tudo histórias sobre tudo e sobre nada.

Às vezes, nem se poderão chamar efetivamente de histórias mas por que acabam sempre por ter um bocadinho de mim, farão, pelo menos e por certo, parte da minha história. São histórias por abotoar e acabam por ser retalhos dos meus pensamentos que coso com as palavras que tenho à minha disposição.

Não me importo se as cores das linhas condizem umas com as outras ou se por vezes se cruzam e fica um nó entre as palavras. Também pouco me interessa se sigo bem os moldes ou se os padrões não combinam de todo. São histórias por abotoar e são pedaços de mim e da forma como vislumbro a vida, são cortes e recortes do meu dia-a-dia e por mais sóbrios ou mais loucos que possam ser, eu visto-os, porque são meus. Visto-os e desfilo-os pela rua. De alguma forma orgulho-me da estilista que vejo crescer em mim.

Porém, eu sei que estas histórias perdem por não lhes dedicar a atenção devida e, na maioria das vezes, não lhes aprimorar o corte ou fazer uma bainha mas por enquanto é assim que elas me fazem sentido. Pouco me importa se quem as lê agora dá pela falta de uma dobra ou até mesmo de um botão… No fim de contas, elas são ainda histórias por abotoar, e cumprem bem a sua função. Tenciono continuar a escrever para mim, para todos e para ninguém.

Prometo que qualquer dia aprendo a costurar.

 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Posso?


-Mãe, se não posso ser criança para sempre, posso ser escritor?
 
...
 
 
-Pai, se não tenho tempo para ser mais do que uma coisa nesta vida, posso ser escritor?


 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O que tu queres, não o queiras


Tu queres inventar o que ainda não foi inventado. Queres ser o primeiro a ter a ideia. Aquilo que mais desejas é descobrir o que ainda nem se sabe que existe. Tu queres ter ideias luminosas e pensamentos nunca antes falados. Tu és aquele que sonha e que ambiciona ser o criador. Tu queres ser Deus.

Tu queres ser revolucionário mas esqueceste que o importante já foi inventado. O que tu queres a mim já não me encanta. O que tu queres, a mim já não me fascina. Gosto do teu lado sonhador mas isso já não me chega. Inventar o quê de novo? Já tanto foi modificado. Já tanto foi experimentado. Já tanta pureza foi sujeita a transformações. Basta!

Não queiras criar. Não queiras ser vanguardista. O necessário a ser inventado, já o foi. Quereres ir além do que já foi inventado é um sortilégio. Disponibiliza antes o teu tempo para cuidar do que já está inventado. Valoriza a pureza das coisas que estão à tua volta. Aprende antes a estimar as emoções verdadeiras. Não cinjas o teu olhar apenas ao que te aparece à frente. Aprecia as boas energias que te enviam. Admira o importante que já foi inventado com a ajuda de pinturas, esculturas, aromas e sons que ficam no ouvido. Como se fosses uma criança, deslumbra-te com o que está à tua volta. Elas todos os dias valorizam as coisas importantes à sua maneira. Não desprezes nunca aquele que repudia o novo ao invés do genuíno. Não troques o importante que já foi inventado pelo novo que nem se consegue bem definir. Procura tu também ser autêntico em vez de te vestires artificial. Não queiras ter ideias que nunca ninguém ousou ter. Isso não fará de ti, comparando com os outros, um ser mais especial. Sê tu mesmo, sem tirar nem pôr, estupidamente normal.

 

E apesar de tudo, eu lá no fundo sei.

Há-de chegar o dia em que tu inventas o mundo e eu já cá não estarei. E, no entanto, que peso tem este texto que eu própria inventei?
 
 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Escrevo porque sei que o que escrevo ninguém consegue ler

Escrevo porque sei que o que escrevo ninguém consegue ler. Aquilo que penso e aquilo escrevo é diferente daquilo que é lido e que é pensado por outrem. Até mesmo eu, depois de escrever o que penso não me consigo lembrar do que estava a pensar quando escrevi. A pessoa que escreve o texto nunca é a mesma que o lê. Muda o tempo, muda o espaço, muda o leitor e, por fim, muda o texto. Às vezes não me reconheço nas minhas próprias letras.

Isto deu, dá e sempre dará azo a novos amores e a novos ódios. Pensamos nós que quem gosta daquilo que escrevemos é porque gosta da forma como pensamos e está em concordância com os nossos sentimentos. Porém, na verdade, quem gosta daquilo que escrevemos, gosta apenas da forma como interpreta as nossas palavras e as consegue encaixar na sua vida. Quem diz que gosta daquilo que lê é porque encontra naquelas letras o seu nome. Da mesma forma, quem não encontra empatia com as palavras que lê pode-lhes mesmo ganhar ódio. E esse ódio gera guerra. A guerra é a ferida que é causada pela leitura de um texto que não se gosta e é partilhada com outros que têm as mesmas feridas.

Um mesmo texto tem tantas interpretações quanto o número de pessoas que o lê. E, sendo assim, há muitos mais textos para serem lidos do que aqueles que já estão escritos. Por um lado, se há muitos outros textos que eu gostaria de ler, por outro lado, há muitos outros textos que eu preferia não descodificar. Então porque ensinamos nós os outros a ler e a escrever? Será apenas uma questão prática, de acesso ao registo escrito? Serão o ler e o escrever direitos de um cidadão? E deveres? Um leitor e um escritor têm direitos mas também têm deveres para com um texto. Um leitor tem o direito de interpretar um texto das formas que quiser. Um escritor tem o direito de escrever um texto sob as formas que quiser. Todavia, um leitor tem o dever de ler na íntegra um texto antes de saltar linhas ou esboçar entrelinhas. E um escritor tem o dever de perante um texto que escreve fazer justiça aos seus pensamentos usando as palavras certas em cada momento. Além disso, o escritor não se pode esquecer que os seus pensamentos ficarão ao acesso de todos. Pelo contrário, o leitor tem a liberdade de poder guardar para si as suas interpretações e apenas as revela se o entender. Não pretendo de alguma forma desprezar o ser-leitor, caso contrário estaria a desprezar-me a mim própria. Eu sou a eterna leitora do meu ser-escritor. Quero apenas distinguir estes dois atos para tudo ficar bem arrumado na minha cabeça. Tu que estás a escrever não és quem estás a ler.

Sempre escrevi, escrevo e continuarei a escrever. Ao fazê-lo, uso o papel e o lápis para desenhar o que penso. Uso letras em vez de traços como os pintores. Através das letras eu mostro as cores daquilo que penso. Uso as palavras paixão, sangue e arrebatador para colorir o amor de vermelho. Uso as palavras sombra, frio e mistério para colorir a noite de preto. Uso letras em vez de colheres-de-pau como os cozinheiros. Através das letras eu mostro os cheiros daquilo que penso. Uso as palavras rosa, brisa e silvestre para perfumar um jardim. Uso as palavras quente, textura e suave para degustar um bom vinho.

Não há dúvida que as palavras são o meu veículo de condução preferido para visitar os meus pensamentos e por lá ficar a passear. Com as palavras em vagueio pelas maiores avenidas das mais modernas cidades e pelas escadinhas de xisto das ruelas escondidas das aldeias mais longínquas. Às vezes vou a pedalar devagarinho a apreciar o sol que roça no meu rosto e outras vezes escrevo de forma pouco cuidada e desenfreada como se estivesse a mudar de metro muitas vezes de seguida. Será que algum dia chegarei ao fim da viagem? Onde para o meu destino?

Um texto não é mais do que uma viagem. Quando se viaja sente-se tudo de uma forma que nunca mais se sentirá igual. Muda o tempo, muda o espaço, muda a companhia que vai ao nosso lado, muda o viajante que há em nós e, por fim, muda o texto. É por isso que às vezes não me reconheço nas minhas próprias letras.