Dizes que és livre mas não sabes. Não sabes que
só és livre dentro da tua liberdade. Dizes que podes, fazes e aconteces, não só
hoje mas desde sempre. Esqueceste que para hoje poderes, fazeres e aconteceres
houve muitos outros antes que não podiam mas faziam e aconteciam. Já houve quem
por ti lutou. Por ti criança, por ti homem, por ti mulher, por ti cidadão do
mundo, por ti um dia que serás idoso. E não te esqueças que és livre mas só
dentro da tua liberdade. O que podes, fazes e aconteces num lugar não quer
dizer que noutro também assim o seja. Esqueceste que houve um tempo em que a
liberdade não te iria pertencer, por seres tu e por seres como és. Mas
lembra-te que hoje tu só és livre dentro da tua liberdade. E o que é ser livre
para ti não é o mesmo que para os outros. Podes estar enjaulado e sentir-te
livre e estares cá fora e não poderes dizer que o és. Outros há que ainda não o
podem dizer. Outros há que a sua liberdade não os deixa sequer ser livres. E os
outros há que mesmo sem liberdade são livres. Outros há que são livres sem o
saberem e outros há que têm a certeza que são livres mas não são, só o são
dentro da sua própria liberdade. Dizes que és livre mas não passas de um
pássaro enjaulado à tua liberdade. A tua liberdade é só tua e ninguém tem uma
liberdade igual à de ninguém. A tua liberdade são as tuas crenças, os teus
valores, os teus objetivos, a tua família, a tua sociedade, o teu mundo e a tua
consciência. Ainda achas que és livre? És livre para pensar que sim.
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sexta-feira, 29 de novembro de 2013
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
O que é que lá cabe?
Tudo
isto cabe.
Bolas
de sabão com muitas cores
e
carrosséis de sabores.
Tudo
isto e muito mais.
Brincadeiras
de giz no chão
E
festinhas no dorso de um cão.
Tudo
cabe e não sai.
Caderno,
papel, tesoura e cola
E
saltinhos a caminho da escola.
Cabe
isto e mais e mais.
Pesadelos
com o bicho-papão
E
sonhos fofos como algodão.
Cabe
ainda, oiçam lá,
Um
coração que transborda amizade
E
um parque-infantil de liberdade.
Cabe
uma mão cheia de esperança.
Tudo
isto cabe no sorriso de uma criança.
Etiquetas:
afetos,
amizade,
criança,
curiosidade,
infância
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Posso?
-Mãe,
se não posso ser criança para sempre, posso ser escritor?
...
-Pai,
se não tenho tempo para ser mais do que uma coisa nesta vida, posso ser escritor?
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
O que tu queres, não o queiras
Tu queres inventar o que ainda não foi
inventado. Queres ser o primeiro a ter a ideia. Aquilo que mais desejas é
descobrir o que ainda nem se sabe que existe. Tu queres ter ideias luminosas e
pensamentos nunca antes falados. Tu és aquele que sonha e que ambiciona ser o
criador. Tu queres ser Deus.
Tu queres ser revolucionário mas esqueceste que
o importante já foi inventado. O que tu queres a mim já não me encanta. O que
tu queres, a mim já não me fascina. Gosto do teu lado sonhador mas isso já não
me chega. Inventar o quê de novo? Já tanto foi modificado. Já tanto foi
experimentado. Já tanta pureza foi sujeita a transformações. Basta!
Não queiras criar. Não queiras ser vanguardista.
O necessário a ser inventado, já o foi. Quereres ir além do que já foi
inventado é um sortilégio. Disponibiliza antes o teu tempo para cuidar do que
já está inventado. Valoriza a pureza das coisas que estão à tua volta. Aprende
antes a estimar as emoções verdadeiras. Não cinjas o teu olhar apenas ao que te
aparece à frente. Aprecia as boas energias que te enviam. Admira o importante
que já foi inventado com a ajuda de pinturas, esculturas, aromas e sons que
ficam no ouvido. Como se fosses uma criança, deslumbra-te com o que está à tua
volta. Elas todos os dias valorizam as coisas importantes à sua maneira. Não
desprezes nunca aquele que repudia o novo ao invés do genuíno. Não troques o
importante que já foi inventado pelo novo que nem se consegue bem definir.
Procura tu também ser autêntico em vez de te vestires artificial. Não queiras
ter ideias que nunca ninguém ousou ter. Isso não fará de ti, comparando com os
outros, um ser mais especial. Sê tu mesmo, sem tirar nem pôr, estupidamente
normal.
E apesar de tudo, eu lá no fundo sei.
Há-de chegar o dia em que tu inventas o mundo e
eu já cá não estarei. E, no entanto, que peso tem este texto que eu própria
inventei?
terça-feira, 29 de outubro de 2013
inês
É
uma menina e chama-se Inês mas não mora na porta trinta e três e só se lhe for
pedido é que fala, desenrascada, Francês. É uma menina morena de cabelos
escuros e esguia. Mas a sua sombra não é fria, aquece o mosaico do quintal onde
brinca. Veste calção de ganga curto já gasto pelas brincadeiras e camisola
branca de manga cava suja de amoras que acabou de apanhar para comer. Passa as
tardes a brincar com as formigas. Com o dedo, com pedrinhas e com pauzinhos
cria obstáculos ao seu caminho para ver o que fazem. Fica a admirá-las,
curiosa, deitada de braços cruzados a carregarem corajosas migalhas de pão enormes.
Várias vezes cai na tentação de pôr uma formiga à boca para provar o amargo
sabor do trabalho. É uma criança feliz. Tem a certeza de passar todos os anos o
seu dia de aniversário na praia com os outros meninos da sua idade. Na areia
molhada e com a pouca minúcia que as suas mãos ainda têm, constroem juntos um
bolo de aniversário para ela. Enfeitam-no com algas e restos de conchas
partidas. Ela sopra sempre com a maior força que tem enquanto na sua cabeça pairam
desejos de um futuro para sempre feliz.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
A relojoaria
Numa
cidade lá para o norte de um país frio existe uma relojoaria. Uma relojoaria
antiga onde não se consegue ver sequer a cor do papel de parede dada a
quantidade de relógios que tem expostos.
O dono da relojoaria é um senhor
baixinho, pálido e curvado pelo tempo. Os poucos cabelos que tem são brancos.
Mas as suas mãos saltam à vista. São mãos grandes e têm a pele lisa. Parece que
o tempo não passou por elas. E a falar o senhor usa as mãos, o que nos faz
olhar para elas e ficar a pensar como é que umas mãos tão grandes conseguem ser
tão minuciosas a consertar relógios.
As pessoas da cidade passam em frente à
porta da relojoaria com uma velocidade tal que parece sempre que está uma
ventania no dia mais sereno do ano. Os relógios que estão expostos na parede
veem os primeiros raios de sol a aparecer e a escuridão da noite a impor-se num
ciclo sem fim. Quando algum cliente abre a porta da relojoaria nunca é com
delicadeza e de um safanão os relógios acordam e os seus ponteiros começam a
andar. E quando vem acompanhado irrompe na relojoaria ainda a falar muito alto
e só para quando se apercebe que o silêncio habita naquele espaço. É que dentro
da relojoaria é como se o tempo parasse. E aí o cliente para e começa a olhar
em redor. Procura um móvel que se assemelhe a um balcão mas não encontra e nem
se dá conta do tic-tac que se ouve pelos cantos da casa. É que os seus
pensamentos corriqueiros gritam e não o deixam ouvir. Lá ao fundo, no canto
mais escuro está uma luz forte que aponta para umas mãos grandes. Estas, por
sua vez, parece que esmagam o que está entre elas mas, na verdade trata-se
apenas da exagerada delicadeza com que o relojoeiro segura o relógio que está a
arranjar. O cliente interpela-o e em resposta ouve uma voz grossa e rouca de
quem já está há muito tempo sem falar. Dirige-se com rapidez na direção da voz
e, da mesma forma rápida com que entrou, sai. Passado um tempo, volta à
relojoaria para receber o relógio já consertado e em troca entrega uns círculos
de metal e uns papéis retangulares que dizem que têm muito valor pois há
pessoas que matam por eles. E voltam a fechar a porta da relojoaria e a parar o
tempo.
De vez em quando, alguém entra com a intenção de levar um dos relógios
que estão pendurados. É das poucas vezes em que eles se sentem observados. O
dono da relojoaria raramente olha para eles. Já os dá como certos. E os
restantes clientes, uma vez que não querem perder tempo, evitam olhar para
eles.
Geralmente é alguém de roupa bem engomada e abastado de barriga que vem
ver os relógios com a intenção de comprar um para a casa de férias que tem uma
decoração rústica e fica mesmo bem na cozinha. Mas estes clientes olham apenas
para o contorno dos relógios, para a numeração romana das horas, para a cor dos
ponteiros e para o valor monetário. Esse outro valor que os relógios têm,
aquele valor que ninguém consegue comprar, não é apreciado pelos outros. Nem
pelos clientes mais bem-dispostos, nem por aqueles mais rabugentos e nem pelo
próprio relojoeiro.
Lá naquela cidade distante, onde existe a relojoaria, há
apenas uns olhos que conseguem atribuir aos relógios o valor que lhes compete.
São uns olhos pequenos e curiosos que vivem no corpo de alguém também pequeno e
curioso. Alguém que fica todos os dias à mesma hora com o nariz colado ao vidro
da relojoaria enquanto a sua mãe compra o pão na padaria ao lado. Apenas essa
pessoa consegue seguir os ponteiros dos relógios como se de engrenagens de
máquinas fabris se tratassem. Os seus olhos fixam-se sempre nos ponteiros do
relógio maior e quando o ponteiro dos segundos dá uma volta e aponta ao mesmo
tempo para outro ponteiro dos segundos do relógio ao lado, os olhos deste ser
dão início a um jogo de perseguição do tempo. E o ser ali fica a aperceber-se
da rapidez com que o tempo passa. O cheiro do pão que a mãe acaba de comprar
viaja pelo ar até ao seu nariz e fica guardado na sua memória para sempre,
juntamente com o sabor a laranja do rebuçado que a senhoria da mãe lhe dera há
poucos minutos por ter entregado uma mola da roupa que caíra do estendal. Na
sua memória ficará também a voz quente e bem temperada que sai do rádio do
carro que está estacionado no passeio. E é aí a única vez que este ser tem o
poder de parar o tempo e prender a eternidade numa lágrima de quem não quer ir
já embora para casa.
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