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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Será que somos mesmo livres?


Dizes que és livre mas não sabes. Não sabes que só és livre dentro da tua liberdade. Dizes que podes, fazes e aconteces, não só hoje mas desde sempre. Esqueceste que para hoje poderes, fazeres e aconteceres houve muitos outros antes que não podiam mas faziam e aconteciam. Já houve quem por ti lutou. Por ti criança, por ti homem, por ti mulher, por ti cidadão do mundo, por ti um dia que serás idoso. E não te esqueças que és livre mas só dentro da tua liberdade. O que podes, fazes e aconteces num lugar não quer dizer que noutro também assim o seja. Esqueceste que houve um tempo em que a liberdade não te iria pertencer, por seres tu e por seres como és. Mas lembra-te que hoje tu só és livre dentro da tua liberdade. E o que é ser livre para ti não é o mesmo que para os outros. Podes estar enjaulado e sentir-te livre e estares cá fora e não poderes dizer que o és. Outros há que ainda não o podem dizer. Outros há que a sua liberdade não os deixa sequer ser livres. E os outros há que mesmo sem liberdade são livres. Outros há que são livres sem o saberem e outros há que têm a certeza que são livres mas não são, só o são dentro da sua própria liberdade. Dizes que és livre mas não passas de um pássaro enjaulado à tua liberdade. A tua liberdade é só tua e ninguém tem uma liberdade igual à de ninguém. A tua liberdade são as tuas crenças, os teus valores, os teus objetivos, a tua família, a tua sociedade, o teu mundo e a tua consciência. Ainda achas que és livre? És livre para pensar que sim.


 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O que é que lá cabe?


Tudo isto cabe.

Bolas de sabão com muitas cores

e carrosséis de sabores.

Tudo isto e muito mais.

Brincadeiras de giz no chão

E festinhas no dorso de um cão.

Tudo cabe e não sai.

Caderno, papel, tesoura e cola

E saltinhos a caminho da escola.

Cabe isto e mais e mais.

Pesadelos com o bicho-papão

E sonhos fofos como algodão.

Cabe ainda, oiçam lá,

Um coração que transborda amizade

E um parque-infantil de liberdade.

Cabe uma mão cheia de esperança.

Tudo isto cabe no sorriso de uma criança.

 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Posso?


-Mãe, se não posso ser criança para sempre, posso ser escritor?
 
...
 
 
-Pai, se não tenho tempo para ser mais do que uma coisa nesta vida, posso ser escritor?


 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O que tu queres, não o queiras


Tu queres inventar o que ainda não foi inventado. Queres ser o primeiro a ter a ideia. Aquilo que mais desejas é descobrir o que ainda nem se sabe que existe. Tu queres ter ideias luminosas e pensamentos nunca antes falados. Tu és aquele que sonha e que ambiciona ser o criador. Tu queres ser Deus.

Tu queres ser revolucionário mas esqueceste que o importante já foi inventado. O que tu queres a mim já não me encanta. O que tu queres, a mim já não me fascina. Gosto do teu lado sonhador mas isso já não me chega. Inventar o quê de novo? Já tanto foi modificado. Já tanto foi experimentado. Já tanta pureza foi sujeita a transformações. Basta!

Não queiras criar. Não queiras ser vanguardista. O necessário a ser inventado, já o foi. Quereres ir além do que já foi inventado é um sortilégio. Disponibiliza antes o teu tempo para cuidar do que já está inventado. Valoriza a pureza das coisas que estão à tua volta. Aprende antes a estimar as emoções verdadeiras. Não cinjas o teu olhar apenas ao que te aparece à frente. Aprecia as boas energias que te enviam. Admira o importante que já foi inventado com a ajuda de pinturas, esculturas, aromas e sons que ficam no ouvido. Como se fosses uma criança, deslumbra-te com o que está à tua volta. Elas todos os dias valorizam as coisas importantes à sua maneira. Não desprezes nunca aquele que repudia o novo ao invés do genuíno. Não troques o importante que já foi inventado pelo novo que nem se consegue bem definir. Procura tu também ser autêntico em vez de te vestires artificial. Não queiras ter ideias que nunca ninguém ousou ter. Isso não fará de ti, comparando com os outros, um ser mais especial. Sê tu mesmo, sem tirar nem pôr, estupidamente normal.

 

E apesar de tudo, eu lá no fundo sei.

Há-de chegar o dia em que tu inventas o mundo e eu já cá não estarei. E, no entanto, que peso tem este texto que eu própria inventei?
 
 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

inês


É uma menina e chama-se Inês mas não mora na porta trinta e três e só se lhe for pedido é que fala, desenrascada, Francês. É uma menina morena de cabelos escuros e esguia. Mas a sua sombra não é fria, aquece o mosaico do quintal onde brinca. Veste calção de ganga curto já gasto pelas brincadeiras e camisola branca de manga cava suja de amoras que acabou de apanhar para comer. Passa as tardes a brincar com as formigas. Com o dedo, com pedrinhas e com pauzinhos cria obstáculos ao seu caminho para ver o que fazem. Fica a admirá-las, curiosa, deitada de braços cruzados a carregarem corajosas migalhas de pão enormes. Várias vezes cai na tentação de pôr uma formiga à boca para provar o amargo sabor do trabalho. É uma criança feliz. Tem a certeza de passar todos os anos o seu dia de aniversário na praia com os outros meninos da sua idade. Na areia molhada e com a pouca minúcia que as suas mãos ainda têm, constroem juntos um bolo de aniversário para ela. Enfeitam-no com algas e restos de conchas partidas. Ela sopra sempre com a maior força que tem enquanto na sua cabeça pairam desejos de um futuro para sempre feliz.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A relojoaria

Numa cidade lá para o norte de um país frio existe uma relojoaria. Uma relojoaria antiga onde não se consegue ver sequer a cor do papel de parede dada a quantidade de relógios que tem expostos.
O dono da relojoaria é um senhor baixinho, pálido e curvado pelo tempo. Os poucos cabelos que tem são brancos. Mas as suas mãos saltam à vista. São mãos grandes e têm a pele lisa. Parece que o tempo não passou por elas. E a falar o senhor usa as mãos, o que nos faz olhar para elas e ficar a pensar como é que umas mãos tão grandes conseguem ser tão minuciosas a consertar relógios.
As pessoas da cidade passam em frente à porta da relojoaria com uma velocidade tal que parece sempre que está uma ventania no dia mais sereno do ano. Os relógios que estão expostos na parede veem os primeiros raios de sol a aparecer e a escuridão da noite a impor-se num ciclo sem fim. Quando algum cliente abre a porta da relojoaria nunca é com delicadeza e de um safanão os relógios acordam e os seus ponteiros começam a andar. E quando vem acompanhado irrompe na relojoaria ainda a falar muito alto e só para quando se apercebe que o silêncio habita naquele espaço. É que dentro da relojoaria é como se o tempo parasse. E aí o cliente para e começa a olhar em redor. Procura um móvel que se assemelhe a um balcão mas não encontra e nem se dá conta do tic-tac que se ouve pelos cantos da casa. É que os seus pensamentos corriqueiros gritam e não o deixam ouvir. Lá ao fundo, no canto mais escuro está uma luz forte que aponta para umas mãos grandes. Estas, por sua vez, parece que esmagam o que está entre elas mas, na verdade trata-se apenas da exagerada delicadeza com que o relojoeiro segura o relógio que está a arranjar. O cliente interpela-o e em resposta ouve uma voz grossa e rouca de quem já está há muito tempo sem falar. Dirige-se com rapidez na direção da voz e, da mesma forma rápida com que entrou, sai. Passado um tempo, volta à relojoaria para receber o relógio já consertado e em troca entrega uns círculos de metal e uns papéis retangulares que dizem que têm muito valor pois há pessoas que matam por eles. E voltam a fechar a porta da relojoaria e a parar o tempo.
De vez em quando, alguém entra com a intenção de levar um dos relógios que estão pendurados. É das poucas vezes em que eles se sentem observados. O dono da relojoaria raramente olha para eles. Já os dá como certos. E os restantes clientes, uma vez que não querem perder tempo, evitam olhar para eles.
Geralmente é alguém de roupa bem engomada e abastado de barriga que vem ver os relógios com a intenção de comprar um para a casa de férias que tem uma decoração rústica e fica mesmo bem na cozinha. Mas estes clientes olham apenas para o contorno dos relógios, para a numeração romana das horas, para a cor dos ponteiros e para o valor monetário. Esse outro valor que os relógios têm, aquele valor que ninguém consegue comprar, não é apreciado pelos outros. Nem pelos clientes mais bem-dispostos, nem por aqueles mais rabugentos e nem pelo próprio relojoeiro.
Lá naquela cidade distante, onde existe a relojoaria, há apenas uns olhos que conseguem atribuir aos relógios o valor que lhes compete. São uns olhos pequenos e curiosos que vivem no corpo de alguém também pequeno e curioso. Alguém que fica todos os dias à mesma hora com o nariz colado ao vidro da relojoaria enquanto a sua mãe compra o pão na padaria ao lado. Apenas essa pessoa consegue seguir os ponteiros dos relógios como se de engrenagens de máquinas fabris se tratassem. Os seus olhos fixam-se sempre nos ponteiros do relógio maior e quando o ponteiro dos segundos dá uma volta e aponta ao mesmo tempo para outro ponteiro dos segundos do relógio ao lado, os olhos deste ser dão início a um jogo de perseguição do tempo. E o ser ali fica a aperceber-se da rapidez com que o tempo passa. O cheiro do pão que a mãe acaba de comprar viaja pelo ar até ao seu nariz e fica guardado na sua memória para sempre, juntamente com o sabor a laranja do rebuçado que a senhoria da mãe lhe dera há poucos minutos por ter entregado uma mola da roupa que caíra do estendal. Na sua memória ficará também a voz quente e bem temperada que sai do rádio do carro que está estacionado no passeio. E é aí a única vez que este ser tem o poder de parar o tempo e prender a eternidade numa lágrima de quem não quer ir já embora para casa.