quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Até daqui a muito tempo

Há muito tempo que não passava por aqui. É bom sinal.

Só escrevo quando me dói a alma.

Vim aqui procurar um texto que escrevi uma vez sobre o mar. Não encontrei.

Deve ter ficado perdido num caderno.


Até daqui a muito tempo.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Patati-Patatá

Era uma vez um Patati-Patatá.

Desculpa.

Era uma vez um Patati e um Patatá.


Humm.

Outra vez.

Era uma vez um Parati-Paratá.


- Para mim?

- Sim, Parati. Parati-Paratá.


- Mas quem é esse Tá?

- Qual Tá?

- Então, disseste para mim e para Tá. Quem é esse Tá?

- Que confusão! Não há nada para ti!

Era uma vez uma Parati-Paratá. O Parati-Paratá é um rebuçado.

- Ah! Pensei que eram dois.

- Não, é só um. Um Parati

E toma lá, dá cá.





A primeira vez que te vi


A primeira vez que te vi

Foi num jardim

com a minha mãe.

A tua perfeição

deixou-me boquiaberta.

Perplexa também.


Nada mais és, do que ar.

O sopro do coração.

Sei que a minha mãe te fez com carinho.

Estico-me toda,

mas em vão.

Tento agarrar-te

mas não consigo.


Fico só a olhar,

a ver-te cair.

E assim sou feliz.

Deslumbrada

com as tuas mil cores

Ao te aproximares do meu nariz.


Finalmente consigo alcançar-te!

Toco-te com a ponta do dedo!

E num instante

tu desapareces.


Acaba a magia.

Acaba a emoção.

De ver pela primeira vez

Uma bola de sabão.





Da letra A à letra Z

_ _ _


Um dia encontrei

um dicionário ao contrário.

Em vez da ordem alfabética

as palavras estavam

tal como mais gostavam.


Ao lado da palavra mãe, estava amor e eternidade

Ao lado da palavra avô estava cócega e saudade


Neste dicionário ao contrário

tudo fazia mais sentido.

Não encontrávamos a palavra pular

por baixo da palavra pudim.

Porque saltar em cima de pudim

Seria uma sujeira sem fim.


Ao lado da palavra filho, estava a palavra alegria

Ao lado da palavra pai, encontrávamos nostalgia


Gosto bem mais desse dicionário.

O mundo deveria ser mesmo assim:

Não organizado alfabeticamente

como hoje em dia se vê,

mas guiado pelo coração

Da letra A à letra Z.

_ _ _



 

sábado, 25 de abril de 2020

17 de agosto



Querida tia,

nascemos no mesmo dia com cinquenta e cinco anos de diferença. Tu Adelaide, eu Susana. "Susaninha" como sempre me chamavas. Não te vou escrever com palavras caras porque nunca foste rica. E não vou filtrar aquilo que escrevo porque também tu dizias o que pensavas sem papas na língua.
Não havia ninguém que não notasse a tua presença onde quer que estivesses. Uma mulher alta, bonita e cujas gargalhadas e cantigas enchiam uma sala.
É com esta Adelaide que eu quero ficar.
Quero ficar com a Adelaide que sabia viver a vida. Que não ia em cantigas de ninguém. Que sofria só para ela e aos outros só sabia dar sorrisos.
Quero ficar com a Adelaide que quando saía de casa punha os estores para baixo mas a janela aberta e a televisão ligada em altos berros para enganar os gatunos de ocasião.
Quero ficar com a Adelaide que sabia brincar ao Carnaval e fazer as delícias das crianças no Natal como me conta a minha mãe.
Quero ficar com a Adelaide que tinha sempre a porta aberta para mim. Que me dizia que a porta estava só fechada no trinco e que na sala tinha uma fotografia da minha mãe ainda menina.
Quero ficar com a Adelaide cuja casa era sempre perfumada com canções de fado, de Amália que admiravas tanto.
Quero ficar com a Adelaide que nunca parava em casa. A Póvoa era muito pequena para ti. Só em Lisboa te sentias bem. A cidade que conhecia o batimento rápido do teu coração e o ritmo com que gostavas de viver a vida.
Quero ficar com a Adelaide que tanto me fazia rir a mim e aos seus netos por pensar que sabia o tema da conversa e acabava por disparar uma frase totalmente descabida sem querer.
Quero ficar com a Adelaide que se vestia de todas as cores. Aquela que não deixava a dor entrar no guarda-fato e usava batom vermelho para sublinhar a garra com que vivia todos os dias.
Quero ficar com a Adelaide que se atrevia a ser feliz e que, às vezes, pouco era compreendida por aqueles que a rodeavam.
Oh Adelaide! Mas tu sabias. Tu sabias que a vida era curta.
E eu quero ficar contigo.
Não quero ficar com a tia que se foi embora hoje. Não quero ficar com a mãe, a irmã ou avó que partiu.
Querida tia, vais ficar comigo.