quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Até daqui a muito tempo

Há muito tempo que não passava por aqui. É bom sinal.

Só escrevo quando me dói a alma.

Vim aqui procurar um texto que escrevi uma vez sobre o mar. Não encontrei.

Deve ter ficado perdido num caderno.


Até daqui a muito tempo.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Entrada do meu diário, a carta que nunca chegou ao destino

 Entrada do meu diário


03-10-2024


A carta que nunca chegou ao destino


Caro Sr. XXX,


Apesar de não me ter perguntado sobre a razão da minha saída tão brusca, sinto-me no dever de lhe dar a conhecer o meu ponto de vista, como Professora que lecionou na xxxx. E sinto-me no dever de o fazer pelo facto de ter sido uma das decisões mais difíceis que tomei na minha vida. Tenho perfeita noção do impacto emocional que esta decisão irá em breve ter no grupo de crianças com quem trabalhei todos os dias, desde que entrei para esta escola.

Ninguém decide ser Professor do 1.º Ciclo para enriquecer. Os Professores que decidem especializar-se neste nível de ensino, não são mais nem menos do que outros Profissionais de Educação. Nós, Professores de 1.º Ciclo, estudamos 6 anos em Universidades e fazemos estágios pedagógicos, para obter uma profissionalização que nos permita ensinar todas as outras áreas. Ao contrário dos outros níveis de ensino, a Educação Pré-escolar e os quatro anos do 1.º Ciclo ensinam competências: ler, contar, socializar, refletir, etc. Para ensinar competências, existe esta especialização. Eu, como Professora do 1.º Ciclo facilmente leciono 2.º, 3.º Ciclo e Secundário. Já o contrário não se poderá dizer. 

Mas apesar de sentir esta diferença de tratamento no meu local de trabalho, não foi essa a razão da minha saída. Saio porque no dia 2 de setembro de 2024 as regras do jogo foram alteradas. Estava disposta a continuar a lecionar mais anos na xxxx nas condições que existiam antes de ir de férias e de ter prometido a todos os EE que iria, sim, continuar com a turma no próximo ano letivo. No dia 2 de setembro, após uma reunião de boas-vindas que me agradou, recebo a informação da minha coordenadora (que, por sua vez, recebeu a informação por SMS!) que todos os Professores tinham de estar na escola das 9h às 17h, tal como consta no contrato de trabalho. Que temos de ser capazes de cumprir o horário das 35h semanais na escola e que não temos nada que levar trabalho para casa. Caiu-me o chão. Esta decisão foi mais uma prova do desconhecimento total daquilo que é o trabalho de um Professor. A parte mais importante do trabalho de um Professor é a dos "bastidores", ou seja, a da preparação das aulas. Na xxxx esse tempo não existe porque os "furos" que temos não contam e, segundo o Sr. XXX, podemos até ausentar-nos e ir a consultas médicas, etc. No entanto, quando os Professores desses "furos" faltam ninguém os vem substituir, assumindo-se que somos nós, claro, que o faremos. Temos, no entanto, na mesma, de compensar estes "furos" no tempo letivo com salas de estudo até às 18h30. Neste caso, já passamos até das 35h semanais e as horas extra não nos são pagas. Mas, como me disse, e muito bem, não foi por dinheiro que saí. Saí porque para continuar a ser uma Professora de 1.º Ciclo competente e boa profissional, preciso de tempo. Preciso de tempo para sair da escola e dar um "saltinho" à drogaria comprar alguma coisa que preciso mesmo para a atividade de Artes Visuais . Preciso de tempo para ir ao supermercado comprar farinha ou outras coisas para uma experiência de Estudo do Meio que planeio fazer no dia a seguir (tudo com o meu dinheiro!). Preciso de tempo para ir buscar os meus filhos à escola, leva-los à natação, ao dentista, brincar com eles, deitá-los e ir para o computador preparar materiais ou corrigir trabalhos e testes para o dia seguinte. Eu compreendo que a xxxx é uma empresa. Tem de gerar lucro. Mas uma escola não é uma fábrica de conservas, em que mais tempo no local de trabalho equivale a maior produção. O nosso trabalho é criativo, é multifacetado, é de relações humanas e valores. O nosso trabalho é motivar os nossos alunos e o seu trabalho, como Diretor Pedagógico é motivar a sua equipa. Neste momento, pergunto-me quantas pessoas da sua equipa trabalham de forma motivada? Da mesma forma que eu como Professora sei que ninguém aprende de trombas, também o Sr. XXX. deveria fazer aquilo que tanto diz ser importante e tirar formação, atualizar-se e "beber" daquilo que outros Diretores Pedagógicos fazem para reter os bons profissionais na sua escola. Sei que não me pediu opinião, mas já agora partilho. Invista, pelo menos, numa Biblioteca para a sua escola. E investir numa Biblioteca Escolar não significa deixar de promover a tecnologia, que sei que é um dos pilares da xxxx. Mas sem literacia, nunca haverá um bom uso da tecnologia e um dos perigos para o futuro da Humanidade é mesmo esse.
Mesmo depois de nos termos reunido várias vezes, mesmo depois de os Professores se terem juntado a tentar que recuasse nesta sua decisão de manter todos os Professores, todos os dias, na escola até às 17h (no meu caso até às 18h30, com apenas 45 minutos de almoço), o Sr. XXX. foi claro na sua mensagem. E eu apenas fiz aquilo que tinha de fazer. Quem está mal, muda-se. Nunca tive intenções de concorrer ao Ensino Público. Só eu sei o quanto esta decisão me está a corroer por dentro por deixar um grupo de crianças e de pais do pé para a mão. Não deixou que me despedisse dos meus alunos, nem eles de mim. Saio contra a minha vontade porque o Sr. XXX. me fez ter de escolher entre os meus alunos e os meus filhos. No trabalho, todos somos substituíveis. O Sr. XXX. melhor do que ninguém, sabe disso. Mas em casa, não. Em casa só existe uma esposa e uma mãe Rita. Não quero ter de tomar medicamentos para manter a minha saúde mental como vejo outros colegas fazerem.
Quando lhe liguei a dizer que precisava de falar consigo porque queria entregar a minha carta de rescisão ouvi apenas em tom seco a frase "Podes deixar isso na secretaria". Foi aí que não tive dúvidas de qual o caminho a seguir.
O bem mais valioso que tem na xxxx são os seus Professores. São eles que lhe irão gerar maior lucro se estiver disposto a ouvi-los. Reconheça as necessidades de cada ciclo de ensino porque não são todos iguais... E, caso não seja capaz de fazer isso, tenha a humildade de dar o lugar a quem consiga fazê-lo. Compreendo que a xxxx é o seu "bebé", o seu projeto de vida, mas com as contínuas tomadas de decisão numa só mesmo direção, apenas irá ver a xxxx a definhar, com meros funcionários que não serão os melhores dos melhores para a melhor escola pela qual tanto lutou. Irá continuar a ter Professores a entrar e a sair, sem que se apaixonem pelo projeto xxxx.

Que o futuro lhe traga aquilo que desejar.
Eu irei trilhar outros desafios, levando para sempre comigo a mágoa que sei que deixei nos meus alunos.
Espero que um dia me perdoem tal como eu tento perdoá-lo a si. Eu perdoar-me a mim? Não almejo tanto.



domingo, 19 de fevereiro de 2023

Não foste notícia no telejornal da noite mas o mundo não será o mesmo.

Não foste notícia no telejornal da noite mas o mundo não será o mesmo.

Há já muito tempo que deixas saudades. A Coreia de Huntington levou dia após dia pedacinhos de ti. O teu raciocínio, os teus movimentos... Pedacinhos únicos que faziam de ti uma pessoa tão especial. Levou-te a tua memória. Primeiro a de curto prazo, depois até de eventos marcantes... Mas nunca levou o mais importante. Esta maldita doença nunca levou o AMOR. Nem o amor que sentias por nós, nem aquele que nós temos por ti.
Quiseste ir passar o Carnaval com as tuas irmãs. A Adelaide, a Fernanda e a Manuela. Eu percebo, avó. Vocês gostavam de brincar ao Carnaval, rir às gargalhadas e pregar partidas. Eram cúmplices, amigas, divertidas, unidas. Eu sei que os teus irmãos e irmãs te recebem de braços abertos e isso traz-me paz.
Tens filhos e um marido que nunca desistiu de ti. Tens netas e bisnetos que não te irão esquecer mas nunca nenhum de nós te conseguiu dar nem metade daquilo que tu nos deste a nós.
Foste filha, irmã, prima, esposa, nora, sogra, mãe, tia, avó e bisavó. AMIGA. Amiga de todos. Aquela que nunca pensava nela para poder dar aos outros, mesmo que isso trouxesse dissabores. Foi sempre um orgulho ser tua neta e dizer pelas ruas da Póvoa que era neta da dona Florinda. Florinda, a flor mais linda.
Há muito tempo que tenho saudades tuas. Tenho saudades de deitar a cabeça no teu colo. Dormir no sofá da tua sala e comer as delícias que com tanto amor preparavas.
A tua casa sempre foi porto de abrigo para todos. Nunca fechaste a porta a ninguém. Pelo contrário, houve quem não soubesse lidar com tanto amor e perdia a coragem de te tocar à campainha. 
Disse-te tudo o que tinha a dizer. Sei que me amavas sem peso nem medida. Sei que nos perdoaste tudo e nos amavas incondicionalmente.
Um dos piores dias das nossas vidas chegou. E eu sei que não nos queres tristes mas é difícil. A vida dá e a vida tira. Estamos sempre prontos para receber e nunca prontos para dar. Eu sei isso tudo, mas é difícil.
Quero acreditar que és agora mais uma estrelinha a olhar por nós. Espero deixar-te orgulhosa. Tento amar os meus como fui amada por ti É só isso que te posso prometer.
Esperaste por mim para te ires embora. Foste tu que escolheste a tua hora. Ambas sabíamos que era uma despedida mas eu não queria aceitar. Estavas a dormir. Obrigada por teres esperado para eu te dar um beijinho. Tu conheces-me e sabes que eu precisava disso.
Estamos cá para continuar a apaparicar o teu "carequinha", amor de uma vida. E vamos continuar a amar-nos como tu nos ensinaste.
Não foste notícia no telejornal da noite, nem no da manhã, mas o mundo não será o mesmo.
Minha querida, avó Florinda.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Patati-Patatá

Era uma vez um Patati-Patatá.

Desculpa.

Era uma vez um Patati e um Patatá.


Humm.

Outra vez.

Era uma vez um Parati-Paratá.


- Para mim?

- Sim, Parati. Parati-Paratá.


- Mas quem é esse Tá?

- Qual Tá?

- Então, disseste para mim e para Tá. Quem é esse Tá?

- Que confusão! Não há nada para ti!

Era uma vez uma Parati-Paratá. O Parati-Paratá é um rebuçado.

- Ah! Pensei que eram dois.

- Não, é só um. Um Parati

E toma lá, dá cá.





A primeira vez que te vi


A primeira vez que te vi

Foi num jardim

com a minha mãe.

A tua perfeição

deixou-me boquiaberta.

Perplexa também.


Nada mais és, do que ar.

O sopro do coração.

Sei que a minha mãe te fez com carinho.

Estico-me toda,

mas em vão.

Tento agarrar-te

mas não consigo.


Fico só a olhar,

a ver-te cair.

E assim sou feliz.

Deslumbrada

com as tuas mil cores

Ao te aproximares do meu nariz.


Finalmente consigo alcançar-te!

Toco-te com a ponta do dedo!

E num instante

tu desapareces.


Acaba a magia.

Acaba a emoção.

De ver pela primeira vez

Uma bola de sabão.