O Orgulho nunca o deixou ser ninguém. Falava-lhe
sempre baixinho ao ouvido e dizia-lhe para se achar melhor do que todos os
outros. Mesmo no momento em que mais precisou da ajuda de alguém, o Orgulho
disse-lhe para não descer tão baixo e ignorar as mãos que o queriam acudir.
“Não peças nunca desculpas a ninguém!” lembrava-lhe vezes sem conta o Orgulho
com medo que ele deixasse de ser quem era e que perdesse assim a sua dignidade.
Em todas as situações pedia-lhe que não desse o braço a torcer, com pena de
passar por perdedor. Ele lá ia ouvindo os conselhos do Orgulho e a sua vida até
que não lhe corria mal… Até disso se podia orgulhar! Vivia sozinho, com aquele
amigo de sempre; não tinha família, não sabia o que era o amor, não tinha
trabalho e vivia para o ar. Era um Zé-ninguém-com-Orgulho. Chegou porém um dia
em que de tão orgulhoso que se tinha tornado achou não precisar mais daquele
seu único e fiel companheiro. Foi inchado de orgulho que lhe deu um pontapé
daqueles bem puxados atrás. Claro que o Orgulho não se ficou por ali e acabou
por lhe dar troco. De tão orgulhosos que ambos eram, ninguém quis sair perdedor
e dar por terminada a zanga. E por isso acabaram por morrer, não de pancada mas
do Síndrome de Orgulho Estupidamente Agudo.
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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
E quem não salta?
A Vida é um conjunto de desafios. Não há quem
não os tenha. Não há quem os consiga ludibriar.
A Vida vai-nos pondo à prova e vai ela própria
nos desafiando. “Tenta lá agora saltar mais alto…” passa a Vida nos dizendo,
sempre que nos encontramos já estáveis e acomodados.
E à primeira vista fazemos sempre uma careta
feia (mais feia do que aquela que tínhamos feito ao último desafio). Mas
depois, respiramos fundo e lembramo-nos de que não é o primeiro desafio que
conseguimos transpor, por isso ganhamos força de vontade para vencer e ali
estamos nós. Olhamos lá para baixo e pensamos “Que salto enorme que eu dei… Já
estou tão cá no cimo!”. E ficamos orgulhosos de nós próprios.
A Vida lá no seu íntimo também se acaba por
orgulhar de nós e, enquanto isso, começa logo a magicar qual o próximo desafio
que nos irá servir de bandeja.
“Já chega de saltos…” pensamos nós para com os
nossos botões. Mas claro que a Vida não faz caso e logo quando nós nos
encontramos a andar vagarosamente ela chega e faz-nos pular novamente. “Upa!”
grita ela puxando por nós.
Nós lá vamos seguindo o que a Vida nos incita a fazer.
Ora damos um saltinho aqui, ora damos um pulo gigante acolá… Às vezes acontece saltarmos
e o desafio ser tão grande que quando caímos ao chão nos magoamos mas, a Vida
lá reconhece o seu erro e trata de nos arranjar uns trampolins. Nós sabemos que
podemos contar sempre com esses trampolins. Às vezes, somos nós mesmos os trampolins
de nós próprios; outras vezes, precisamos dos trampolins vizinhos para
voltarmos ao patamar onde estávamos antes. Eu, pessoalmente, gosto de chamar os
meus trampolins pelo seu verdadeiro nome: Amigos. Acho que lhes devo esse
respeito.
Espero que a Vida esteja orgulhosa de mim. Tenho
saltado todas as vezes que ela mo pediu para fazer. Às vezes lá dou um salto
mais pequenino quando devia ter quase tocado nas nuvens. Outras vezes, ela
espera de mim um pequeno salto e eu consigo deixá-la boquiaberta com a altura a
que consegui chegar. Às vezes também caio mas, graças a Deus que tenho os meus
Amigos, os trampolins. Afinal, o importante é nunca perder o jeito para saltar.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
É uma coisa boa, a Amizade
É uma coisa boa, a Amizade.
Geralmente, não se percebe bem quando começa.
Nunca ouvi ninguém dizer: “Começámos a amizar
no dia 15 de setembro.” Não. Aparece de forma mais ou menos natural com o
passar do tempo e com a proximidade e cumplicidade que duas pessoas vão
ganhando. É de dia para dia que se ganha e constrói uma amizade.
E a amizade não precisa de grandes declarações
ou cartas, não precisa sequer de ser platónica ou proibida. Ninguém dá flores
ou leva alguém a jantar a um sítio caro para ganhar a sua amizade. Não se esta
quiser ser sincera. A amizade alimenta-se de gestos simples e de palavras
certas no momento em que mais se precisa. A amizade prefere muitas vezes um
abraço às mãos dadas e tantas, mas tantas vezes um ombro a um beijo.
E nem sempre é um sentimento claro. A verdade é
que só nos apercebemos dela muitas vezes quando não estamos à espera. E noutros
momentos quando já estávamos a contar com ela, quando já a dávamos por certa é
que ela parece que não está e escapa-se-nos por entre os dedos como uma brisa
de vento que não se segura.
Mas a amizade traz-nos mais alegrias que
tristezas. Traz-nos muitos momentos bem passados. Traz-nos muitas memórias que
levamos até ao nosso último pensamento e traz-nos acima de tudo a vida. É
quando rimos que nos sentimos vivos. Que nos libertamos de nós próprios. Que
deixamos a nossa máscara dura, de ferro, cair para dar lugar à surpresa e à
gargalhada com o outro.
E um amigo perdoa sempre um amigo, “porque se
fosse comigo eu sei que farias o mesmo”. “Eu perdoo-te porque a nossa amizade é
mais forte do que isso”. É outra verdade. A amizade é forte. Tão forte que não
acaba nem mesmo enfraquece quando as pessoas estão fisicamente longe umas das
outras. Faz-me até acreditar que existe algo acima de nós próprios, mais
poderoso que algum outro ser que mantém os laços de amizade fortalecidos mesmo
após anos e anos sem falar.
A mim parece-me que a Lua está de alguma forma
comprometida neste caso. Parece-me suspeito que quando olho para ela me lembre
sempre dos meus amigos, sabendo que eles também poderão estar naquele preciso
momento a olhar para a Lua ou pelo menos a ser contemplados por ela.
E há ainda outra verdade maravilhosa. É que podemos
ter quantas amizades nós quisermos. Não precisamos de nos sentir culpados por
ter mais do que um amigo. Na verdade, as amizades também não se contam pelos
dedos mas pela quantidade de vezes que pensamos no outro antes de pensarmos em
nós mesmos. Não é quantificável. Na realidade, é uma das formas de pormos à
prova uma verdadeira amizade. Aquele que nos cobra por ter outras amizades além
da sua, não é um verdadeiro amigo. Não deseja da mesma forma que nós, a nossa
felicidade.
E a amizade é ainda preciosa noutro aspeto. É
que os amigos não precisam de caminhar os dois na mesma direção. Não precisam
sequer de estar no mesmo barco para seguirem o mesmo caminho. Para se
entenderem, no campo da amizade, os amigos só precisam de ter tempo um para o
outro, para se ouvirem. Mas ouvir não é apenas estar calado enquanto o outro
fala. Não. Isso já sai da fronteira da amizade outra vez. Para se ser amigo de
alguém, tem de se escutar de verdade, com os olhos, com os ouvidos e com o
coração. Eu sei que tenho um amigo de verdade quando ele termina as frases que
eu comecei e quando até nos meus silêncios ele sabe o que eu estou dizer.
Depois, as pessoas têm necessidade de
materializar a amizade de alguma forma. Há pessoas que oferecem presentes umas
às outras. Algumas tiram fotografias dos momentos que passam juntas. Outras
fazem vídeos para mais tarde poderem recordar. Há até quem guarde bilhetes de
cinema ou de espetáculos vistos em conjunto. E outros há, que escrevem nos seus
diários as formas como a amizade se revelou naquele dia especial. Além disso,
há as músicas que acabam por eternizar aquela noite no bar ou aquele cheiro a
crepes do dia em que fomos beber café.
A amizade nunca se esquece mas, mesmo assim, as
pessoas têm necessidade de a manter segura no campo dos sentimentos como se
fosse uma daquelas pedrinhas que mais brilha na praia e que nós queremos
guardar para sempre numa garrafinha com areia.
Poderia ficar aqui uma eternidade se continuasse
a escrever sobre a amizade mas não me seria dado tempo suficiente para o fazer.
O melhor será continuar a tê-la na minha vida.
- Amizade, queres ser minha amiga?
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