Esvazia-te. Sente-te vazio. Inunda-te de
incertezas. Volta a ser uma tábua rasa se algum dia sequer o foste. Livra-te de
tudo o que aprendeste. Volta a olhar o mundo sem preconceitos. Respira como se
fosse a primeira vez. Alegra-te com o que de mais simples a vida tem. Não
procures saber. Não queiras saber. Tem raiva de quem sabe. Não queiras saber de
professores, de livros ou filosofias. Eles infetam-te. Eles mudam-te. Eles
querem que sejas quem tu não és. Sacode-te. Deixa sair os teus pensamentos.
Deixa as tuas emoções saírem de forma natural. Chora se tiveres que chorar. Ri
se tiveres que rir. Esconde-te do mundo se quiseres. Expulsa de ti qualquer
tipo de opinião. Exorciza qualquer religião. Não acredites em nada. Não oiças o
que te dizem. Não creias no que os teus olhos veem. Não te deixes levar por
perfumes. Repele-te contra tudo o que te queira tocar. Sê livre de sensações e
de emoções. Repudia sentimentos e anula conhecimentos. Não queiras ir mais
longe. Fica onde estás e esvazia-te. Esvazia-te apenas e nada te poderá magoar.
Sê vazio, mas feliz.
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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Será que somos mesmo livres?
Dizes que és livre mas não sabes. Não sabes que
só és livre dentro da tua liberdade. Dizes que podes, fazes e aconteces, não só
hoje mas desde sempre. Esqueceste que para hoje poderes, fazeres e aconteceres
houve muitos outros antes que não podiam mas faziam e aconteciam. Já houve quem
por ti lutou. Por ti criança, por ti homem, por ti mulher, por ti cidadão do
mundo, por ti um dia que serás idoso. E não te esqueças que és livre mas só
dentro da tua liberdade. O que podes, fazes e aconteces num lugar não quer
dizer que noutro também assim o seja. Esqueceste que houve um tempo em que a
liberdade não te iria pertencer, por seres tu e por seres como és. Mas
lembra-te que hoje tu só és livre dentro da tua liberdade. E o que é ser livre
para ti não é o mesmo que para os outros. Podes estar enjaulado e sentir-te
livre e estares cá fora e não poderes dizer que o és. Outros há que ainda não o
podem dizer. Outros há que a sua liberdade não os deixa sequer ser livres. E os
outros há que mesmo sem liberdade são livres. Outros há que são livres sem o
saberem e outros há que têm a certeza que são livres mas não são, só o são
dentro da sua própria liberdade. Dizes que és livre mas não passas de um
pássaro enjaulado à tua liberdade. A tua liberdade é só tua e ninguém tem uma
liberdade igual à de ninguém. A tua liberdade são as tuas crenças, os teus
valores, os teus objetivos, a tua família, a tua sociedade, o teu mundo e a tua
consciência. Ainda achas que és livre? És livre para pensar que sim.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
O que é que lá cabe?
Tudo
isto cabe.
Bolas
de sabão com muitas cores
e
carrosséis de sabores.
Tudo
isto e muito mais.
Brincadeiras
de giz no chão
E
festinhas no dorso de um cão.
Tudo
cabe e não sai.
Caderno,
papel, tesoura e cola
E
saltinhos a caminho da escola.
Cabe
isto e mais e mais.
Pesadelos
com o bicho-papão
E
sonhos fofos como algodão.
Cabe
ainda, oiçam lá,
Um
coração que transborda amizade
E
um parque-infantil de liberdade.
Cabe
uma mão cheia de esperança.
Tudo
isto cabe no sorriso de uma criança.
Etiquetas:
afetos,
amizade,
criança,
curiosidade,
infância
terça-feira, 29 de outubro de 2013
inês
É
uma menina e chama-se Inês mas não mora na porta trinta e três e só se lhe for
pedido é que fala, desenrascada, Francês. É uma menina morena de cabelos
escuros e esguia. Mas a sua sombra não é fria, aquece o mosaico do quintal onde
brinca. Veste calção de ganga curto já gasto pelas brincadeiras e camisola
branca de manga cava suja de amoras que acabou de apanhar para comer. Passa as
tardes a brincar com as formigas. Com o dedo, com pedrinhas e com pauzinhos
cria obstáculos ao seu caminho para ver o que fazem. Fica a admirá-las,
curiosa, deitada de braços cruzados a carregarem corajosas migalhas de pão enormes.
Várias vezes cai na tentação de pôr uma formiga à boca para provar o amargo
sabor do trabalho. É uma criança feliz. Tem a certeza de passar todos os anos o
seu dia de aniversário na praia com os outros meninos da sua idade. Na areia
molhada e com a pouca minúcia que as suas mãos ainda têm, constroem juntos um
bolo de aniversário para ela. Enfeitam-no com algas e restos de conchas
partidas. Ela sopra sempre com a maior força que tem enquanto na sua cabeça pairam
desejos de um futuro para sempre feliz.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Os sapatos vermelhos da senhora
Eram
vermelhos e brilhantes, os sapatos vermelhos da senhora.
Eram calçados de manhã cedo, ainda o sol não havia aquecido a vidraça das janelas. Roçavam todo o dia umas meias de vidro estreadas de propósito por ser um dia importante. Ficavam a condizer com a saia e o blazer cinzentos e com a camisa de leves riscas vermelhas que vestiam esta boa senhora.
Passavam o dia de um lado para o outro. Ora faziam barulho no soalho do escritório, ora andavam devagarinho para não escorregarem na calçada, ora descansavam ainda cruzados junto à secretária. Uma azáfama tremenda. Mas eles não sossegavam. Ora era para a esquerda, ora era para a direita. Ora era a dar uma corrida para apanhar o metro que estava quase com as portas a fecharem-se ora era a esticarem-se para a senhora conseguir alcançar o dossiê que estava na prateleira mais alta.
Eram calçados de manhã cedo, ainda o sol não havia aquecido a vidraça das janelas. Roçavam todo o dia umas meias de vidro estreadas de propósito por ser um dia importante. Ficavam a condizer com a saia e o blazer cinzentos e com a camisa de leves riscas vermelhas que vestiam esta boa senhora.
Passavam o dia de um lado para o outro. Ora faziam barulho no soalho do escritório, ora andavam devagarinho para não escorregarem na calçada, ora descansavam ainda cruzados junto à secretária. Uma azáfama tremenda. Mas eles não sossegavam. Ora era para a esquerda, ora era para a direita. Ora era a dar uma corrida para apanhar o metro que estava quase com as portas a fecharem-se ora era a esticarem-se para a senhora conseguir alcançar o dossiê que estava na prateleira mais alta.
As
solas sofridas por mais um dia de trabalho só encontravam descanso há hora do almoço
quando pisavam a relva macia do jardim da cidade. Aí recuperavam as forças. Por
vezes, tinham o azar de o seu vermelho luzidio ficar tingido de castanho com
cheiro a café. Mas logo eram acariciados por um pano húmido como alguém que
trata com muito cuidado uma ferida num joelho de uma criança. Os sapatos sabiam
que o mundo não iria acabar só por causa disso. São ossos do ofício! - diriam
outros sapatos de outras cores também brilhantes.
Já
perto do fim do dia de trabalho, sofriam às vezes alguns percalços, ficando a
agulha presa entre duas pedras da calçada, num buraco de uma grelha do esgoto
ou pisando algo desagradável e mal cheiroso. Às vezes, acontecia a cunha saltar
por acidente e os sapatos eram colocados num saco que era entregue a um senhor
de mãos pouco limpas. Eles não gostavam muito da forma como eram tratados por
este senhor. Por vezes, aquelas mãos eram brutas e sujavam-nos de graxa. Graxa
essa que havia sido usada numas botas rudes de homem que trabalhava com elas
todos os dias solo a solo (e até mesmo sola a sola). Verdade é que, os sapatos acabavam
por ficar consertados e prontos rapidamente para voltar a acompanhar a senhora
na sua rotina quotidiana.
Geralmente,
depois da última caminhada ao final da tarde, apanhavam finalmente o elevador e
pisavam a alcatifa do hall de entrada
da casa da senhora. Era sempre a mesma alcatifa bege e bem-disposta que lhes
dava as boas-vindas. Mas, os desgraçados rapidamente eram descalçados e
atirados para um canto da casa aos trambolhões, como se a senhora se tivesse
esquecido de todo o trabalho e esforço que eles tinham tido durante o dia para
a acompanhar.
Os
sapatos vermelhos e brilhantes da senhora sentiam-se injustiçados. Era de facto
uma falta de gratidão para com quem vivia inteiramente para agradar à senhora. E
como se isto não bastasse, no final do dia a senhora tirava-os não para andar
descalça (o que até seria compreensível) mas para os trocar por umas pantufas
simplórias. Aquelas cobertas de pelo que um dia já tinha sido branco e com dois
buracos. Os sapatos vermelhos e brilhantes ficavam sempre lá no seu canto a
fitar o que a sua senhora fazia com as reles pantufas. Viam-nas a acompanha-la na
cozinha de um lado para o outro: do frigorífico para a bancada, da bancada para
o fogão, do fogão novamente para o frigorífico e para a bancada outra vez. Às
vezes, eram apanhadas de surpresa por uns salpicos de água ou por um tropeção
no tapete junto ao lavatório. E aí é que os sapatos da senhora se regozijavam.
Riam-se bem alto e as suas cores até parecia que ficavam mais brilhantes pelo
gosto que tinham em ver as malditas pantufas a atrapalharem-se entre elas e a ficarem
ainda mais sujas. Depois, viam a senhora a andar de um quarto para o outro. Ouviam-na
a murmurar, a falar e por vezes a cantar.
Os
sapatos vermelhos e brilhantes da senhora sentiam-se tristes e quase
amaldiçoados. Eles só perdoavam a senhora porque ela os trocava por uma boa
razão. Eram as únicas horas do dia que a senhora tinha para cuidar dos chinelos
pequeninos.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
A relojoaria
Numa
cidade lá para o norte de um país frio existe uma relojoaria. Uma relojoaria
antiga onde não se consegue ver sequer a cor do papel de parede dada a
quantidade de relógios que tem expostos.
O dono da relojoaria é um senhor
baixinho, pálido e curvado pelo tempo. Os poucos cabelos que tem são brancos.
Mas as suas mãos saltam à vista. São mãos grandes e têm a pele lisa. Parece que
o tempo não passou por elas. E a falar o senhor usa as mãos, o que nos faz
olhar para elas e ficar a pensar como é que umas mãos tão grandes conseguem ser
tão minuciosas a consertar relógios.
As pessoas da cidade passam em frente à
porta da relojoaria com uma velocidade tal que parece sempre que está uma
ventania no dia mais sereno do ano. Os relógios que estão expostos na parede
veem os primeiros raios de sol a aparecer e a escuridão da noite a impor-se num
ciclo sem fim. Quando algum cliente abre a porta da relojoaria nunca é com
delicadeza e de um safanão os relógios acordam e os seus ponteiros começam a
andar. E quando vem acompanhado irrompe na relojoaria ainda a falar muito alto
e só para quando se apercebe que o silêncio habita naquele espaço. É que dentro
da relojoaria é como se o tempo parasse. E aí o cliente para e começa a olhar
em redor. Procura um móvel que se assemelhe a um balcão mas não encontra e nem
se dá conta do tic-tac que se ouve pelos cantos da casa. É que os seus
pensamentos corriqueiros gritam e não o deixam ouvir. Lá ao fundo, no canto
mais escuro está uma luz forte que aponta para umas mãos grandes. Estas, por
sua vez, parece que esmagam o que está entre elas mas, na verdade trata-se
apenas da exagerada delicadeza com que o relojoeiro segura o relógio que está a
arranjar. O cliente interpela-o e em resposta ouve uma voz grossa e rouca de
quem já está há muito tempo sem falar. Dirige-se com rapidez na direção da voz
e, da mesma forma rápida com que entrou, sai. Passado um tempo, volta à
relojoaria para receber o relógio já consertado e em troca entrega uns círculos
de metal e uns papéis retangulares que dizem que têm muito valor pois há
pessoas que matam por eles. E voltam a fechar a porta da relojoaria e a parar o
tempo.
De vez em quando, alguém entra com a intenção de levar um dos relógios
que estão pendurados. É das poucas vezes em que eles se sentem observados. O
dono da relojoaria raramente olha para eles. Já os dá como certos. E os
restantes clientes, uma vez que não querem perder tempo, evitam olhar para
eles.
Geralmente é alguém de roupa bem engomada e abastado de barriga que vem
ver os relógios com a intenção de comprar um para a casa de férias que tem uma
decoração rústica e fica mesmo bem na cozinha. Mas estes clientes olham apenas
para o contorno dos relógios, para a numeração romana das horas, para a cor dos
ponteiros e para o valor monetário. Esse outro valor que os relógios têm,
aquele valor que ninguém consegue comprar, não é apreciado pelos outros. Nem
pelos clientes mais bem-dispostos, nem por aqueles mais rabugentos e nem pelo
próprio relojoeiro.
Lá naquela cidade distante, onde existe a relojoaria, há
apenas uns olhos que conseguem atribuir aos relógios o valor que lhes compete.
São uns olhos pequenos e curiosos que vivem no corpo de alguém também pequeno e
curioso. Alguém que fica todos os dias à mesma hora com o nariz colado ao vidro
da relojoaria enquanto a sua mãe compra o pão na padaria ao lado. Apenas essa
pessoa consegue seguir os ponteiros dos relógios como se de engrenagens de
máquinas fabris se tratassem. Os seus olhos fixam-se sempre nos ponteiros do
relógio maior e quando o ponteiro dos segundos dá uma volta e aponta ao mesmo
tempo para outro ponteiro dos segundos do relógio ao lado, os olhos deste ser
dão início a um jogo de perseguição do tempo. E o ser ali fica a aperceber-se
da rapidez com que o tempo passa. O cheiro do pão que a mãe acaba de comprar
viaja pelo ar até ao seu nariz e fica guardado na sua memória para sempre,
juntamente com o sabor a laranja do rebuçado que a senhoria da mãe lhe dera há
poucos minutos por ter entregado uma mola da roupa que caíra do estendal. Na
sua memória ficará também a voz quente e bem temperada que sai do rádio do
carro que está estacionado no passeio. E é aí a única vez que este ser tem o
poder de parar o tempo e prender a eternidade numa lágrima de quem não quer ir
já embora para casa.
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