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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

vazio


Esvazia-te. Sente-te vazio. Inunda-te de incertezas. Volta a ser uma tábua rasa se algum dia sequer o foste. Livra-te de tudo o que aprendeste. Volta a olhar o mundo sem preconceitos. Respira como se fosse a primeira vez. Alegra-te com o que de mais simples a vida tem. Não procures saber. Não queiras saber. Tem raiva de quem sabe. Não queiras saber de professores, de livros ou filosofias. Eles infetam-te. Eles mudam-te. Eles querem que sejas quem tu não és. Sacode-te. Deixa sair os teus pensamentos. Deixa as tuas emoções saírem de forma natural. Chora se tiveres que chorar. Ri se tiveres que rir. Esconde-te do mundo se quiseres. Expulsa de ti qualquer tipo de opinião. Exorciza qualquer religião. Não acredites em nada. Não oiças o que te dizem. Não creias no que os teus olhos veem. Não te deixes levar por perfumes. Repele-te contra tudo o que te queira tocar. Sê livre de sensações e de emoções. Repudia sentimentos e anula conhecimentos. Não queiras ir mais longe. Fica onde estás e esvazia-te. Esvazia-te apenas e nada te poderá magoar. Sê vazio, mas feliz.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Será que somos mesmo livres?


Dizes que és livre mas não sabes. Não sabes que só és livre dentro da tua liberdade. Dizes que podes, fazes e aconteces, não só hoje mas desde sempre. Esqueceste que para hoje poderes, fazeres e aconteceres houve muitos outros antes que não podiam mas faziam e aconteciam. Já houve quem por ti lutou. Por ti criança, por ti homem, por ti mulher, por ti cidadão do mundo, por ti um dia que serás idoso. E não te esqueças que és livre mas só dentro da tua liberdade. O que podes, fazes e aconteces num lugar não quer dizer que noutro também assim o seja. Esqueceste que houve um tempo em que a liberdade não te iria pertencer, por seres tu e por seres como és. Mas lembra-te que hoje tu só és livre dentro da tua liberdade. E o que é ser livre para ti não é o mesmo que para os outros. Podes estar enjaulado e sentir-te livre e estares cá fora e não poderes dizer que o és. Outros há que ainda não o podem dizer. Outros há que a sua liberdade não os deixa sequer ser livres. E os outros há que mesmo sem liberdade são livres. Outros há que são livres sem o saberem e outros há que têm a certeza que são livres mas não são, só o são dentro da sua própria liberdade. Dizes que és livre mas não passas de um pássaro enjaulado à tua liberdade. A tua liberdade é só tua e ninguém tem uma liberdade igual à de ninguém. A tua liberdade são as tuas crenças, os teus valores, os teus objetivos, a tua família, a tua sociedade, o teu mundo e a tua consciência. Ainda achas que és livre? És livre para pensar que sim.


 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O que é que lá cabe?


Tudo isto cabe.

Bolas de sabão com muitas cores

e carrosséis de sabores.

Tudo isto e muito mais.

Brincadeiras de giz no chão

E festinhas no dorso de um cão.

Tudo cabe e não sai.

Caderno, papel, tesoura e cola

E saltinhos a caminho da escola.

Cabe isto e mais e mais.

Pesadelos com o bicho-papão

E sonhos fofos como algodão.

Cabe ainda, oiçam lá,

Um coração que transborda amizade

E um parque-infantil de liberdade.

Cabe uma mão cheia de esperança.

Tudo isto cabe no sorriso de uma criança.

 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

inês


É uma menina e chama-se Inês mas não mora na porta trinta e três e só se lhe for pedido é que fala, desenrascada, Francês. É uma menina morena de cabelos escuros e esguia. Mas a sua sombra não é fria, aquece o mosaico do quintal onde brinca. Veste calção de ganga curto já gasto pelas brincadeiras e camisola branca de manga cava suja de amoras que acabou de apanhar para comer. Passa as tardes a brincar com as formigas. Com o dedo, com pedrinhas e com pauzinhos cria obstáculos ao seu caminho para ver o que fazem. Fica a admirá-las, curiosa, deitada de braços cruzados a carregarem corajosas migalhas de pão enormes. Várias vezes cai na tentação de pôr uma formiga à boca para provar o amargo sabor do trabalho. É uma criança feliz. Tem a certeza de passar todos os anos o seu dia de aniversário na praia com os outros meninos da sua idade. Na areia molhada e com a pouca minúcia que as suas mãos ainda têm, constroem juntos um bolo de aniversário para ela. Enfeitam-no com algas e restos de conchas partidas. Ela sopra sempre com a maior força que tem enquanto na sua cabeça pairam desejos de um futuro para sempre feliz.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Os sapatos vermelhos da senhora

Eram vermelhos e brilhantes, os sapatos vermelhos da senhora.

Eram calçados de manhã cedo, ainda o sol não havia aquecido a vidraça das janelas. Roçavam todo o dia umas meias de vidro estreadas de propósito por ser um dia importante. Ficavam a condizer com a saia e o blazer cinzentos e com a camisa de leves riscas vermelhas que vestiam esta boa senhora.

Passavam o dia de um lado para o outro. Ora faziam barulho no soalho do escritório, ora andavam devagarinho para não escorregarem na calçada, ora descansavam ainda cruzados junto à secretária. Uma azáfama tremenda. Mas eles não sossegavam. Ora era para a esquerda, ora era para a direita. Ora era a dar uma corrida para apanhar o metro que estava quase com as portas a fecharem-se ora era a esticarem-se para a senhora conseguir alcançar o dossiê que estava na prateleira mais alta.

As solas sofridas por mais um dia de trabalho só encontravam descanso há hora do almoço quando pisavam a relva macia do jardim da cidade. Aí recuperavam as forças. Por vezes, tinham o azar de o seu vermelho luzidio ficar tingido de castanho com cheiro a café. Mas logo eram acariciados por um pano húmido como alguém que trata com muito cuidado uma ferida num joelho de uma criança. Os sapatos sabiam que o mundo não iria acabar só por causa disso. São ossos do ofício! - diriam outros sapatos de outras cores também brilhantes.

Já perto do fim do dia de trabalho, sofriam às vezes alguns percalços, ficando a agulha presa entre duas pedras da calçada, num buraco de uma grelha do esgoto ou pisando algo desagradável e mal cheiroso. Às vezes, acontecia a cunha saltar por acidente e os sapatos eram colocados num saco que era entregue a um senhor de mãos pouco limpas. Eles não gostavam muito da forma como eram tratados por este senhor. Por vezes, aquelas mãos eram brutas e sujavam-nos de graxa. Graxa essa que havia sido usada numas botas rudes de homem que trabalhava com elas todos os dias solo a solo (e até mesmo sola a sola). Verdade é que, os sapatos acabavam por ficar consertados e prontos rapidamente para voltar a acompanhar a senhora na sua rotina quotidiana.

Geralmente, depois da última caminhada ao final da tarde, apanhavam finalmente o elevador e pisavam a alcatifa do hall de entrada da casa da senhora. Era sempre a mesma alcatifa bege e bem-disposta que lhes dava as boas-vindas. Mas, os desgraçados rapidamente eram descalçados e atirados para um canto da casa aos trambolhões, como se a senhora se tivesse esquecido de todo o trabalho e esforço que eles tinham tido durante o dia para a acompanhar.

Os sapatos vermelhos e brilhantes da senhora sentiam-se injustiçados. Era de facto uma falta de gratidão para com quem vivia inteiramente para agradar à senhora. E como se isto não bastasse, no final do dia a senhora tirava-os não para andar descalça (o que até seria compreensível) mas para os trocar por umas pantufas simplórias. Aquelas cobertas de pelo que um dia já tinha sido branco e com dois buracos. Os sapatos vermelhos e brilhantes ficavam sempre lá no seu canto a fitar o que a sua senhora fazia com as reles pantufas. Viam-nas a acompanha-la na cozinha de um lado para o outro: do frigorífico para a bancada, da bancada para o fogão, do fogão novamente para o frigorífico e para a bancada outra vez. Às vezes, eram apanhadas de surpresa por uns salpicos de água ou por um tropeção no tapete junto ao lavatório. E aí é que os sapatos da senhora se regozijavam. Riam-se bem alto e as suas cores até parecia que ficavam mais brilhantes pelo gosto que tinham em ver as malditas pantufas a atrapalharem-se entre elas e a ficarem ainda mais sujas. Depois, viam a senhora a andar de um quarto para o outro. Ouviam-na a murmurar, a falar e por vezes a cantar.

Os sapatos vermelhos e brilhantes da senhora sentiam-se tristes e quase amaldiçoados. Eles só perdoavam a senhora porque ela os trocava por uma boa razão. Eram as únicas horas do dia que a senhora tinha para cuidar dos chinelos pequeninos.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A relojoaria

Numa cidade lá para o norte de um país frio existe uma relojoaria. Uma relojoaria antiga onde não se consegue ver sequer a cor do papel de parede dada a quantidade de relógios que tem expostos.
O dono da relojoaria é um senhor baixinho, pálido e curvado pelo tempo. Os poucos cabelos que tem são brancos. Mas as suas mãos saltam à vista. São mãos grandes e têm a pele lisa. Parece que o tempo não passou por elas. E a falar o senhor usa as mãos, o que nos faz olhar para elas e ficar a pensar como é que umas mãos tão grandes conseguem ser tão minuciosas a consertar relógios.
As pessoas da cidade passam em frente à porta da relojoaria com uma velocidade tal que parece sempre que está uma ventania no dia mais sereno do ano. Os relógios que estão expostos na parede veem os primeiros raios de sol a aparecer e a escuridão da noite a impor-se num ciclo sem fim. Quando algum cliente abre a porta da relojoaria nunca é com delicadeza e de um safanão os relógios acordam e os seus ponteiros começam a andar. E quando vem acompanhado irrompe na relojoaria ainda a falar muito alto e só para quando se apercebe que o silêncio habita naquele espaço. É que dentro da relojoaria é como se o tempo parasse. E aí o cliente para e começa a olhar em redor. Procura um móvel que se assemelhe a um balcão mas não encontra e nem se dá conta do tic-tac que se ouve pelos cantos da casa. É que os seus pensamentos corriqueiros gritam e não o deixam ouvir. Lá ao fundo, no canto mais escuro está uma luz forte que aponta para umas mãos grandes. Estas, por sua vez, parece que esmagam o que está entre elas mas, na verdade trata-se apenas da exagerada delicadeza com que o relojoeiro segura o relógio que está a arranjar. O cliente interpela-o e em resposta ouve uma voz grossa e rouca de quem já está há muito tempo sem falar. Dirige-se com rapidez na direção da voz e, da mesma forma rápida com que entrou, sai. Passado um tempo, volta à relojoaria para receber o relógio já consertado e em troca entrega uns círculos de metal e uns papéis retangulares que dizem que têm muito valor pois há pessoas que matam por eles. E voltam a fechar a porta da relojoaria e a parar o tempo.
De vez em quando, alguém entra com a intenção de levar um dos relógios que estão pendurados. É das poucas vezes em que eles se sentem observados. O dono da relojoaria raramente olha para eles. Já os dá como certos. E os restantes clientes, uma vez que não querem perder tempo, evitam olhar para eles.
Geralmente é alguém de roupa bem engomada e abastado de barriga que vem ver os relógios com a intenção de comprar um para a casa de férias que tem uma decoração rústica e fica mesmo bem na cozinha. Mas estes clientes olham apenas para o contorno dos relógios, para a numeração romana das horas, para a cor dos ponteiros e para o valor monetário. Esse outro valor que os relógios têm, aquele valor que ninguém consegue comprar, não é apreciado pelos outros. Nem pelos clientes mais bem-dispostos, nem por aqueles mais rabugentos e nem pelo próprio relojoeiro.
Lá naquela cidade distante, onde existe a relojoaria, há apenas uns olhos que conseguem atribuir aos relógios o valor que lhes compete. São uns olhos pequenos e curiosos que vivem no corpo de alguém também pequeno e curioso. Alguém que fica todos os dias à mesma hora com o nariz colado ao vidro da relojoaria enquanto a sua mãe compra o pão na padaria ao lado. Apenas essa pessoa consegue seguir os ponteiros dos relógios como se de engrenagens de máquinas fabris se tratassem. Os seus olhos fixam-se sempre nos ponteiros do relógio maior e quando o ponteiro dos segundos dá uma volta e aponta ao mesmo tempo para outro ponteiro dos segundos do relógio ao lado, os olhos deste ser dão início a um jogo de perseguição do tempo. E o ser ali fica a aperceber-se da rapidez com que o tempo passa. O cheiro do pão que a mãe acaba de comprar viaja pelo ar até ao seu nariz e fica guardado na sua memória para sempre, juntamente com o sabor a laranja do rebuçado que a senhoria da mãe lhe dera há poucos minutos por ter entregado uma mola da roupa que caíra do estendal. Na sua memória ficará também a voz quente e bem temperada que sai do rádio do carro que está estacionado no passeio. E é aí a única vez que este ser tem o poder de parar o tempo e prender a eternidade numa lágrima de quem não quer ir já embora para casa.