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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
quarta-feira, 23 de julho de 2014
escrever
Não é justo. Não me podes tratar assim. Usas e
abusas de mim e depois fartas-te. Nunca mais me ligas nenhuma. Afinal o que sou
eu para ti? Um mero objeto que pensas que te podes dar ao luxo de pôr de parte
quando já não queres. Só quando precisas de mim é que me dás atenção. E eu
nunca te digo que não. Estou sempre cá para ti. Ajudo-te a deitares cá para
fora tudo o que sentes. Ajudo-te a arrumar os pensamentos na tua cabecinha.
Ficas sempre mais leve depois de me usares e mesmo assim não aprendes. Depois
de algum tempo sem mim, voltas com toda essa sofreguidão de quem quer engolir o
mundo. Não pode ser. Eu exijo justiça! Das duas, uma! Ou de facto não gostas de
mim e fica o assunto resolvido, passas a ser apenas mais um humano. Ou admites
que gostas de mim de verdade e nunca mais me deixas sem razão aparente. Pelo
menos faz-me todos os dias um bocadinho de companhia! Nesta segunda hipótese,
tenho a certeza que serás mais feliz e que eu até te irei surpreender! Vá… Toca
a decidir! Olha que não volto atrás na minha palavra (como tu sabes muito bem!).
O que está escrito, escrito está! Ou eu não me chame Escrever!
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
insatisfação
Porque
é que eu rasgo tanto do que escrevo? É tão fácil discordar de mim própria. Às
vezes estou a escrever e já pressinto que no futuro não vou gostar de ler o que
escrevi. É que às vezes usamos palavras demasiado duras ou demasiado patetas.
Palavras que só naquele momento faziam sentido. E naquele momento sentimo-nos
bem porque aquelas palavras tiveram a sua função, mas depois já não.
Hoje
sim, amanhã não.
Será que somos mesmo livres?
Dizes que és livre mas não sabes. Não sabes que
só és livre dentro da tua liberdade. Dizes que podes, fazes e aconteces, não só
hoje mas desde sempre. Esqueceste que para hoje poderes, fazeres e aconteceres
houve muitos outros antes que não podiam mas faziam e aconteciam. Já houve quem
por ti lutou. Por ti criança, por ti homem, por ti mulher, por ti cidadão do
mundo, por ti um dia que serás idoso. E não te esqueças que és livre mas só
dentro da tua liberdade. O que podes, fazes e aconteces num lugar não quer
dizer que noutro também assim o seja. Esqueceste que houve um tempo em que a
liberdade não te iria pertencer, por seres tu e por seres como és. Mas
lembra-te que hoje tu só és livre dentro da tua liberdade. E o que é ser livre
para ti não é o mesmo que para os outros. Podes estar enjaulado e sentir-te
livre e estares cá fora e não poderes dizer que o és. Outros há que ainda não o
podem dizer. Outros há que a sua liberdade não os deixa sequer ser livres. E os
outros há que mesmo sem liberdade são livres. Outros há que são livres sem o
saberem e outros há que têm a certeza que são livres mas não são, só o são
dentro da sua própria liberdade. Dizes que és livre mas não passas de um
pássaro enjaulado à tua liberdade. A tua liberdade é só tua e ninguém tem uma
liberdade igual à de ninguém. A tua liberdade são as tuas crenças, os teus
valores, os teus objetivos, a tua família, a tua sociedade, o teu mundo e a tua
consciência. Ainda achas que és livre? És livre para pensar que sim.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
O que nos leva à dor?
Abafa.
Abafador. Abafa a dor.
Cura.
Curador. Cura a dor.
Acelera.
Acelerador. Acelera a dor.
Salva.
Salvador. Salva a dor.
Acusa.
Acusador. Acusa a dor.
Admira.
Admirador. Admira a dor.
Fura.
Furador. Fura a dor.
Anima.
Animador. Anima a dor.
Agrafa.
Agrafador. Agrafa a dor.
Ama.
Amador. Ama a dor.
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Mas afinal o que são Histórias Ainda Por Abotoar?
São
histórias por abotoar estas que vos escrevo. Não são mais do que singelos
rascunhos, por vezes até pobres no seu significado mas que escrevo com alma
sobre os mais nobres tecidos. São acima de tudo histórias sobre tudo e sobre
nada.
Às
vezes, nem se poderão chamar efetivamente de histórias mas por que acabam
sempre por ter um bocadinho de mim, farão, pelo menos e por certo, parte da minha
história. São histórias por abotoar e acabam por ser retalhos dos meus
pensamentos que coso com as palavras que tenho à minha disposição.
Não
me importo se as cores das linhas condizem umas com as outras ou se por vezes
se cruzam e fica um nó entre as palavras. Também pouco me interessa se sigo bem
os moldes ou se os padrões não combinam de todo. São histórias por abotoar e
são pedaços de mim e da forma como vislumbro a vida, são cortes e recortes do
meu dia-a-dia e por mais sóbrios ou mais loucos que possam ser, eu visto-os,
porque são meus. Visto-os e desfilo-os pela rua. De alguma forma orgulho-me da
estilista que vejo crescer em mim.
Porém,
eu sei que estas histórias perdem por não lhes dedicar a atenção devida e, na
maioria das vezes, não lhes aprimorar o corte ou fazer uma bainha mas por
enquanto é assim que elas me fazem sentido. Pouco me importa se quem as lê
agora dá pela falta de uma dobra ou até mesmo de um botão… No fim de contas,
elas são ainda histórias por abotoar, e cumprem bem a sua função. Tenciono
continuar a escrever para mim, para todos e para ninguém.
Prometo
que qualquer dia aprendo a costurar.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Posso?
-Mãe,
se não posso ser criança para sempre, posso ser escritor?
...
-Pai,
se não tenho tempo para ser mais do que uma coisa nesta vida, posso ser escritor?
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Escrevo porque sei que o que escrevo ninguém consegue ler
Escrevo
porque sei que o que escrevo ninguém consegue ler. Aquilo que penso e aquilo
escrevo é diferente daquilo que é lido e que é pensado por outrem. Até mesmo eu,
depois de escrever o que penso não me consigo lembrar do que estava a pensar
quando escrevi. A pessoa que escreve o texto nunca é a mesma que o lê. Muda o
tempo, muda o espaço, muda o leitor e, por fim, muda o texto. Às vezes não me
reconheço nas minhas próprias letras.
Isto
deu, dá e sempre dará azo a novos amores e a novos ódios. Pensamos nós que quem
gosta daquilo que escrevemos é porque gosta da forma como pensamos e está em
concordância com os nossos sentimentos. Porém, na verdade, quem gosta daquilo
que escrevemos, gosta apenas da forma como interpreta as nossas palavras e as
consegue encaixar na sua vida. Quem diz que gosta daquilo que lê é porque
encontra naquelas letras o seu nome. Da mesma forma, quem não encontra empatia
com as palavras que lê pode-lhes mesmo ganhar ódio. E esse ódio gera guerra. A
guerra é a ferida que é causada pela leitura de um texto que não se gosta e é
partilhada com outros que têm as mesmas feridas.
Um
mesmo texto tem tantas interpretações quanto o número de pessoas que o lê. E,
sendo assim, há muitos mais textos para serem lidos do que aqueles que já estão
escritos. Por um lado, se há muitos outros textos que eu gostaria de ler, por
outro lado, há muitos outros textos que eu preferia não descodificar. Então
porque ensinamos nós os outros a ler e a escrever? Será apenas uma questão
prática, de acesso ao registo escrito? Serão o ler e o escrever direitos de um
cidadão? E deveres? Um leitor e um escritor têm direitos mas também têm deveres
para com um texto. Um leitor tem o direito de interpretar um texto das formas
que quiser. Um escritor tem o direito de escrever um texto sob as formas que
quiser. Todavia, um leitor tem o dever de ler na íntegra um texto antes de
saltar linhas ou esboçar entrelinhas. E um escritor tem o dever de perante um
texto que escreve fazer justiça aos seus pensamentos usando as palavras certas
em cada momento. Além disso, o escritor não se pode esquecer que os seus
pensamentos ficarão ao acesso de todos. Pelo contrário, o leitor tem a
liberdade de poder guardar para si as suas interpretações e apenas as revela se
o entender. Não pretendo de alguma forma desprezar o ser-leitor, caso contrário
estaria a desprezar-me a mim própria. Eu sou a eterna leitora do meu ser-escritor.
Quero apenas distinguir estes dois atos para tudo ficar bem arrumado na minha
cabeça. Tu que estás a escrever não és quem estás a ler.
Sempre
escrevi, escrevo e continuarei a escrever. Ao fazê-lo, uso o papel e o lápis para
desenhar o que penso. Uso letras em vez de traços como os pintores. Através das
letras eu mostro as cores daquilo que penso. Uso as palavras paixão, sangue e
arrebatador para colorir o amor de vermelho. Uso as palavras sombra, frio e
mistério para colorir a noite de preto. Uso letras em vez de colheres-de-pau
como os cozinheiros. Através das letras eu mostro os cheiros daquilo que penso.
Uso as palavras rosa, brisa e silvestre para perfumar um jardim. Uso as
palavras quente, textura e suave para degustar um bom vinho.
Não
há dúvida que as palavras são o meu veículo de condução preferido para visitar
os meus pensamentos e por lá ficar a passear. Com as palavras em vagueio pelas
maiores avenidas das mais modernas cidades e pelas escadinhas de xisto das
ruelas escondidas das aldeias mais longínquas. Às vezes vou a pedalar
devagarinho a apreciar o sol que roça no meu rosto e outras vezes escrevo de
forma pouco cuidada e desenfreada como se estivesse a mudar de metro muitas
vezes de seguida. Será que algum dia chegarei ao fim da viagem? Onde para o meu
destino?
Um
texto não é mais do que uma viagem. Quando se viaja sente-se tudo de uma forma
que nunca mais se sentirá igual. Muda o tempo, muda o espaço, muda a companhia que
vai ao nosso lado, muda o viajante que há em nós e, por fim, muda o texto. É
por isso que às vezes não me reconheço nas minhas próprias letras.
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